Os Idiotas é a última criação da tetralogia iniciada em 2015, em torno do processo teatral, em que uma ideia normativa, orgânica ou meramente funcional de “teatro” é posta em causa a partir das condições elementares que estão subjacentes à organicidade dessa convenção artística ou pressuposição formal.
Em Os Idiotas, o leitmotiv é o trabalho de interpretação dos atores e das atrizes enquanto motor de pesquisa e experimentação em torno dos binómios ficção/realidade e, consequentemente, performers/público. Não se pretende operar uma dicotomia entre estes planos, mas antes a tentativa de os colocar num plano horizontal, numa presença ativa, mesmo que sob percepções distintas, centradas na presença dos atores e atrizes. Deste modo, contraria-se a criação artística como uma unidade coesa de totalidade de sentido, pensando-a antes como um acontecimento impuro, na margem do risco e da imprevisibilidade.
Com criação de Ana Gil, Nuno Leão e Óscar Silva e dramaturgia de Miguel Castro Caldas, Os Idiotas procura descarnar a técnica da representação testando os binómios referidos sob uma ficção concreta: um grupo de atores desempregados forma um clube para praticar a arte da representação necessária à profissão. É neste enquadramento narrativo que se pretende problematizar a possibilidade do teatro, da condição do ator que continuamente se confronta com o que nele se refaz e desfaz, gladiando obstinadamente com o silêncio – como se quanto mais se representasse, mais acabasse por faltar.