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Celestia é um projeto teatral de Piccolissima Compagnia Veneziana, escrito e interpretado por Alvise Camozzi, em colaboração com Roberta Colacino. Veneza é, ao mesmo tempo, cenário e objeto da obra, que atravessa diferentes linguagens e géneros para interrogar a cidade contemporânea e as suas contradições.

A dramaturgia tem início no ensaio antropológico La bonifica umana, título que remete a um conceito apresentado durante uma conferência realizada nos anos 1930 por Vittorio Cini. Naquela ocasião, o empresário delineou um plano de reorganização urbana que antecipava uma forma inicial de gentrificação, destinada a impactar profundamente a estrutura social de Veneza e a vida de seus habitantes, e que mais tarde influenciaria, de maneiras diversas, outras capitais culturais ao redor do mundo.

A ideia, também compartilhada e promovida por Giuseppe Volpi, materializou-se na criação de uma Veneza administrativamente ampliada para além da ilha histórica em direção ao continente, com a progressiva transferência da população operária para novos bairros ligados ao polo industrial. Esse processo, concebido como uma solução racional e moderna, deu início a um êxodo estrutural que alterou de forma irreversível a relação entre a cidade e os seus habitantes.

O texto não é tratado como um documentário, mas como um dispositivo crítico, poético e político, por meio do qual os processos de esvaziamento urbano e suas repercussões no presente emergem de forma fragmentada.

A performance desenvolve-se a partir de uma descrição surreal de uma pintura de Veronese, A Anunciação. A obra, hoje exposta nas Gallerie dell’Accademia, sobrepõe-se de modo irónico e poético à narrativa de uma despedida que é, ao mesmo tempo, amorosa e política, íntima e coletiva.

Celestia é o nome de uma antiga área operária no sestiere veneziano de Castello, local onde a história se desenrola e a partir do qual se inicia uma reflexão mais ampla sobre habitar, perda e transformação urbana.

O texto, já experimentado por Alvise Camozzi na forma de leituras em diversas ocasiões em Veneza, constitui o ponto de partida de um percurso de pesquisa cénica que trabalha com a sobreposição de sons, imagens, palavras faladas e palavras sobrepostas. A investigação linguística é parte integrante do processo criativo e será aprofundada durante a residência.

A dramaturgia é estruturada em dois blocos narrativos distintos. O primeiro é dedicado à pintura Annunciazione, de Veronese, e é narrado em dialeto veneziano — uma língua popular que ainda conserva um forte sentido de identidade — escolhida para abordar um tema tradicionalmente considerado “alto”. O segundo bloco é narrado em italiano. Nessa parte, a presença de legendas e traduções torna-se elemento integrante da composição cénica, funcionando como um movimento expressivo adicional. A Maria da pintura funde-se progressivamente com a Maria do êxodo proletário veneziano, transformando a figura sagrada em um corpo histórico, político e contemporâneo.

Ficha Artística / Técnica

Criação, texto e interpretação
Alvise Camozzi

Colaboração artística
Roberta Colacino

Dramaturgia
Alvise Camozzi

Pesquisa e concepção
Alvise Camozzi, Roberta Colacino

Produção
Piccolissima Compagnia Veneziana

Coprodução em Residência
O Espaço do Tempo

© Roberta Colacino

Piccolissima Compagnia Veneziana é uma companhia de recente formação que desenvolve projetos a partir de experiências performativas e multimédia. As suas produções incluem espetáculos teatrais e obras de áudio e vídeo, como podcasts e minidocumentários, além de percursos socioeducativos que integram narrativa, som e imagem. Fundada por Alvise Camozzi e Roberta Colacino, a companhia nasce do encontro de trajetórias complementares. Camozzi atua há mais de vinte anos entre a Itália e o Brasil, com foco em narrativa e pesquisa sonora. Colacino é atriz e marionetista, com ampla experiência em teatro de formas animadas e para as novas gerações.

Alvise Camozzi, Roberta Colacino / Piccolissima Compagnia Veneziana (IT)

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