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Numa viagem venturosa pelo mundo da ópera, a soprano Andrea Conangla interpreta algumas das árias mais espetaculares e exigentes do repertório setecentista. No papel de Cleópatra, na peça Giulio Cesare, de Händel, encarna a expressão de alívio e triunfo em Da tempeste e o poder sedutor em V’adoro, pupille. Com A Loucura, abandona-se no registo satírico da ópera Platée de Rameau. Sucumbe no lamento e na súplica de Almirena, em Rinaldo, de Händel. Termina com a vingança e a bravura da Rainha da Noite n’A Flauta Mágica, de Mozart. Alternadamente, a orquestra interpreta aberturas de óperas de Mozart e Rossini, passa pelo exotismo estilizado de Rameau n’As Índias Galantes e remata com a energia contagiante do célebre Can-Can de Offenbach.

 

REPORTÓRIO
Textos de Rui Campos Leitão

W. A. Mozart Abertura da ópera As Bodas de Figaro (1786)

O libreto da ópera As Bodas de Figaro é muito fiel à peça teatral em que se inspirou – La Folle Journée, ou Le Mariage de Figaro, do dramaturgo francês Pierre-Augustin Beaumarchais. Escrita pouco tempo antes da Tomada da Bastilha, retrata com humor a luta de classes que alimentava os ideais dos revoltosos. A sua abertura orquestral não antecipa as melodias mais célebres, tais como as árias "Non so più cosa son, cosa faccio", "Non più andrai, farfallone amoroso" ou "Voi che sapete che cosa è amor". Mas não deixa de ser imediatamente reconhecível, pela energia contagiante, pela leveza e agilidade rítmica que captam certeiramente o espírito cómico e desenvolto dos quatro atos que lhe seguem.

G. F. Händel Da tempeste il legno infranto, ária da ópera Giulio Cesare (1724)

"Da tempeste il legno infranto" é uma ária de júbilo cantada com virtuosismo por Cleópatra no terceiro ato da ópera Giulio Cesare. Decorre no momento em que, após superar todas as adversidades, desfruta da vitória comparando-se a um barco que enfrentou imensas tempestades, mas conseguiu, por fim, alcançar um porto seguro. A música expressa esse sentimento de triunfo e de esperança. Ágil, repleta de coloraturas, a melodia é acompanhada por uma orquestração vibrante que sugere a inquietação das ondas do mar. Cria-se uma atmosfera de alegria e celebração.

G. Puccini: Crisantemi (1890)

De Puccini conhecem-se, sobretudo, as óperas. Crisantemi é uma das poucas peças em que abdicou da voz – cerca de uma dúzia. Originalmente composta para quarteto de cordas, teve como propósito homenagear postumamente o seu amigo Duque de Aosta, figura destacada da aristocracia italiana da época que havia sido rei de Espanha entre 1871 e 1873. Explica-se assim o caráter elegíaco e introspetivo dessa mesma melodia que reapareceu mais tarde na ópera Manon Lescaut. Crisântemos são flores tradicionalmente presentes nos funerais em Itália.

G. F. Händel  V’adoro, pupille, ária da ópera Giulio Cesare (1724)

No segundo ato da ópera Giulio Cesare, Cleópatra canta "V’adoro, pupille", uma ária de sedução dedicada ao imperador. Apresenta-se em palco numa encenação que representa o Monte Parnaso, como visão de uma deusa cercada por músicos e musas. Cleópatra expressa admiração e desejo comparando os olhos (as pupilas) de César com setas de amor que lhe ferem o coração. Distingue-se uma orquestração delicada que cria uma atmosfera sobrenatural.

W. A. Mozart  Abertura da ópera Don Giovanni (1787)

Entre o drama e a comédia, Don Giovanni é uma ópera dramaturgicamente brilhante. O personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Da Ponte. A abertura orquestral apresenta excertos musicais que vão surgindo ao longo do espetáculo. Sintetiza os elementos dramáticos essenciais: os conflitos e as motivações.

J.-P. Rameau Aux langueurs d’Apollon, ária da ópera Platée (1745)

No panorama musical da primeira metade do século XVIII, o nome de Rameau tem uma importância equivalente aos de Bach e Vivaldi. Reputado organista e mestre em teoria musical, compôs pela primeira vez música de cena quando já contava cerca de cinquenta anos de idade – ainda a tempo de concluir mais de duas dezenas de espetáculos. Platée, uma sátira sobre a vaidade e os delírios amorosos, foi a sua primeira incursão do domínio da ópera cómica. Platée é uma ninfa que acredita ser amada por Júpiter. Na ária "Aux langueurs d’Apollon" ("Aos lamentos de Apolo"), a personagem La Folie (A Loucura) diverte-se espirituosamente com as desgraças e os caprichos do amor não correspondido.

G. Rossini  Abertura da ópera A Italiana em Argel (1813)

L’Italiana in Algeri foi um dos primeiros grandes sucessos de Rossini. Ao importar recursos da ópera séria para o contexto da comicidade, acentuou os contrastes dramatúrgicos que em grande medida lhe garantiram o sucesso. Datada de 1813, o libreto conta a história de Isabella, uma italiana que, tendo a beleza como sua principal arma, aventurou-se na capital argelina na busca de libertar seu amado da condição de prisioneiro. A Abertura é magnificente, plena de energia, drama e bom humor. Após uma introdução calma em que o oboé brilha sobre o pizzicato das cordas, a orquestra introduz um pequeno motivo rítmico que domina toda a peça. Característica do compositor italiano, assiste-se a uma irradiante criatividade nas sucessivas combinações instrumentais, sempre pontuadas por imensos acordes do maciço orquestral que reforçam a carga dramática.

G. F. Händel Lascia ch’io pianga, ária da ópera Rinaldo (1711)

Rinaldo foi a primeira ópera composta integralmente em língua italiana para o público londrino. Abriu caminho a uma tradição que perdurou e consagrou a reputação de Händel em Inglaterra. O espetáculo distinguia-se pela exuberância cénica, incluindo trovões, relâmpagos, pirotecnia, animais vivos e mudanças de cenário engenhosas. Paradoxalmente, "Lascia ch’io pianga", uma das suas árias mais célebres, caracteriza-se pela serenidade melódica e por uma melancolia profunda. Ouve-se no segundo ato cantada pela personagem Almirena, prometida do cavaleiro Rinaldo. Raptada pela feiticeira Armida, chora a sua sorte e clama pela liberdade suplicando que a dor possa romper as amarras que a prendem.

J. P. Rameau Dança dos Selvagens, da ópera-ballet As Índias Galantes (1735)

A ópera-ballet As Índias Galantes consiste numa sucessão de quadros cénicos inspirados em locais tidos como exóticos pela imaginação europeia daquela época, tais como o Peru, a Turquia, a Pérsia e a América do Norte. A Dança dos Selvagens apresenta-se na última parte do espetáculo e inspira-se, precisamente, nas danças indígenas da região do Louisiana, à época colonizada pelos franceses. Rameau teve contacto com tal intensidade percussiva e repetição rítmica aquando da presença de uma delegação daquele povo na corte do rei Luís XV, em 1725. Dez anos mais tarde resultaria esta Entrée cujo enredo coloca a filha de um chefe índio no dilema da escolha entre dois pretendentes europeus e um jovem da sua tribo. Elege este último… e celebra-se com a dança do cachimbo da paz.

W. A. Mozart  A Rainha da Noite, ária da ópera A Flauta Mágica (1791)

Baseada em mitos e contos de fadas, A Flauta Mágica é uma comédia em dois atos cujo enredo se desenrola em torno do amor entre um príncipe e uma jovem bela e virtuosa. O motor da ação é o conflito entre uma rainha malévola e um feiticeiro sábio e ardiloso, deixando sempre lugar para situações teatrais hilariantes. Tudo acontece num mundo imaginário algures situado "entre o Sol e a Lua", mas com referências concretas ao Antigo Egipto. Esta ária ouve-se no segundo ato, quando a Rainha da Noite, dominada pela fúria, ordena que sua filha Pamina mate Sarastro.

J. Offenbach  Can-Can, da ópera Orfeu nos Infernos (1858)

No final do século XIX, o Galope Infernal da ópera Orfeu nos Infernos de Offenbach tornou-se presença obrigatória nos cabarés parisienses. É uma peça musical vibrante que também se tornou símbolo da ópera cómica francesa. No enredo original, era uma sátira ao mito de Orfeu e Eurídice. Já perto do final, no submundo, os deuses e as bacantes juntam-se numa festa marcada por ritmos frenéticos e uma energia contagiante.

25 outubro, 21h30

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Cineteatro Curvo Semedo ver mapa

› 60min.
› Maiores de 6 anos

Entrada gratuita mediante reserva na BOL do Município de Montemor-o-Novo ou no Posto de Turismo.

Ficha Artística / Técnica

Constituição da Orquestra Metropolitana de Lisboa

Flautas
Nuno Inácio
Janete Santos

Oboés
Sally Dean
Carla Pereira

Clarinetes
Jorge Camacho
Sara Rocha (1)

Fagotes
Lurdes Carneiro
Rafaela Oliveira

Trompas
Daniel Canas
Jérôme Arnouf

Trompetes
Sérgio Charrinho
João Moreira

Tímpanos
Rodrigo Azevedo

Cravo
Flávia Almeida Castro (1)

Primeiros Violinos
Ana Pereira concertino
Nuno Rodrigues
Alexêi Tolpygo
Tolga Kulak
Inês Marques (2)
Francisco Costa (2)
Lyza Valdman (2)

Segundos Violinos
Ágnes Sárosi
José Teixeira
Mariana Moita (2)
Ana Rita Almeida (2)
Anzhela Akopyan
Daniela Radu

Violas
José Freitas
Sérgio Sousa
Andrei Ratnikov
Leonor Fleming
Joana Tavares (2)

Violoncelos
Nuno Abreu
Catarina Gonçalves
Jian Hong
Ana Cláudia Serrão

Contrabaixos
Ercole de Conca
Vladimir Kouznetsov

(1) - Aluno/a ANSO
(2) - Convidado/a

© Marcelo Albuquerque

A Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML) é pedra angular de um projeto que se estende além do formato habitual de uma orquestra clássica. Quando se apresentou pela primeira vez em público, no Mosteiro dos Jerónimos a 10 de junho de 1992, anunciou o propósito de fazer confluir as missões artísticas, pedagógicas e cívicas por intermédio de uma gestão otimizada de recursos e uma visão ampla e integrada de todas as vertentes do fenómeno musical. Pedro Neves é, desde janeiro de 2021, Diretor Artístico e Maestro Titular.

 

 

 

 

 

 

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