O que é que uma cavalaria e o corpo da juventude têm em comum? Sendo o mais honesto possÃvel, também não sei, mas são estas as três primeiras imagens que me surgem quando oiço a Pavana para uma Infanta Defunta, de Maurice Ravel. Uma pavana é uma dança lenta, associada a um cortejo de caracterÃsticas processionais e melancólicas, com um peso e uma lentidão que sinto que carregam uma velocidade escondida. A verdade que encontro neste tempo demorado de transportar um corpo diz-me que ando à procura de demorar o enterro da juventude tanto quanto possÃvel. Talvez por me aperceber que deixei coisas para trás, ou por sentir que não vivi vagarosamente uma adolescência que deveria ser eterna, encontro agora um refúgio neste tempo da pavana para gerar uma coreografia interminável, incontrolável. Uma fugacidade que não desacelere nunca do inÃcio até ao fim deste cortejo, questionando assim qual é realmente a durabilidade da ausência de pausa, utilizando o tempo no seu exponencial máximo. Poderá um corpo driblar-se a si próprio em campo? Poderão os cavalos e as éguas selvagens galopar para trás como fuga de um futuro destrutivo?
A vida como a peste e a juventude como a montanha. E vamos ao topo da montanha não para entrar, mas para sair de nós mesmos, para deixarmos os cavalos e as éguas correrem em liberdade, em direção à morte ou à purificação. Acredito que chegou a hora de respirarmos menos e suarmos mais.