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Um corpo é demasiado pesado

Carolina Pequito

07 dez, 2023

O cemitério enquanto espaço de luto, e a sua ligação à morte, é posto em questão no espetáculo Descansar, de Raquel S. O que está quase sempre ligado à prática religiosa é exposto a partir de um entendimento clínico, de uma prática científica, que se traduz no branqueamento da morte. A parte racional, própria da consciência, impõe-se ao sentimento instintivo e intrínseco que define a humanidade, para que o lamento da despedida se possa sentir mais tarde ou nunca mais. 

Em momento algum é evocada a morte suja, desprovida de floreios. As cores da decomposição são omitidas em fotografias a preto e branco, de esqueletos, mosquitos e moscas, predadores e rochas. A Terra estratificada, nutrida por húmus, é ilustrada com material sintético: a representação plástica de alcatrão granulado. O suor libertado por um corpo é anunciado como um dos pesos de se estar vivo. A sua natureza asquerosa é desconfortável. A expressão da decadência é oprimida. 

A evolução da consciência é trazida à cena sob a forma de uma personagem, uma arqueóloga do futuro, cuja civilização não dispõe de locais de enterramento. Movida pela busca de conhecimento científico, a vivacidade e vigor da sua pesquisa é acompanhada pela cor do sangue, no fato impermeável e brilhante que lhe cobre o corpo. A esta imagem artificial e descontaminada é sobreposto um discurso depreciativo sobre os materiais inorgânicos da nossa sociedade. A narrativa desaprova as ações do ser humano enquanto confirma a sua construção por alguém desconectado da Terra. A autora parece questionar a forma de existência humana, quase recusando a promulgação da espécie, ansiando pela sua extinção. 

“O que é que significa não poder mais?” A pergunta extrai a profundidade de uma consciência impotente perante a duração. É como um lamento gritado do fundo de um poço. Onde ninguém quer estar. Grita-se de lá, talvez ninguém ouça, mas grita-se na mesma. A voz do espírito grita mais alto do que o instrumento vocal. Se ninguém o ouve, só pode ser alucinado aquele que não ouve mais nada que não o espírito. 

Há quem se dedique a estudar e a amar doentes: os que ouvem a menos, os que ouvem a mais e os que não ouvem sequer. E nestes casos pode um otorrinolaringologista reduzir os danos? A conquista da audição não resulta necessariamente em escuta. O que separa o saber ler e o saber interpretar é o mesmo que separa o saber ouvir e o saber escutar. Tal como o que separa o querer acreditar e o acreditar sem querer. 

O figurino escolhido para as personagens mortas transforma o corpo pós-vida numa presença pura, cristalina, brilhante, que anda sobre saltos altos transparentes. A morte, em vez de rude e ingrata para com a vida, impõe-se sobre ela, subindo um patamar. Liberta-se dos pesos terrenos e ascende ao estado de fantasma, anunciado como possível apenas no teatro e nos filmes românticos, porque o séc. XXI é considerado uma era pós-mágica. O espetáculo também é desprovido dessa magia, o que impossibilita a verossimilhança da existência de fantasmas até no teatro. 

O medo de cemitérios à noite é cultural. Estão fechados e não se deve entrar, não vá um espírito perdido tomar um corpo vivo, tirar-lhe a consciência e roubar-lhe tudo o que é. Para Raquel S., o medo é o último sentimento a abandonar a existência individual. Se o ser humano deixar a sua humanidade, vulnerável, efémera, transitória, livra-se do peso da morte do corpo e o medo desaparece, pois sem corpo não há emoção. 

Em forma de citação reformulada “Ser ou não ser / estar”, Raquel S. explora a ideia de que ser ou não ser é o mesmo de estar. Contudo, a ciência não possibilita o aprisionamento de um espírito num objeto artificial. O que perdura é a consciência, ou a inteligência. O desconhecido será sempre fruto da imaginação, mas o prazo é real: desde a invenção do primeiro robô autónomo, há́ 75 anos, especula-se que quando a oportunidade de abdicar do corpo estiver ao alcance de todos, a humanidade dará lugar ao mundo das máquinas, de livre e espontânea vontade. Um corpo é demasiado pesado. 

Carolina Pequito

Crítica apresentada no Seminário de Escrita Crítica para Artes Performativas, orientado por Rui Catalão, que decorreu nos dois fins-de-semana do ET/FEST, festival onde são apresentados os projetos vencedores das Bolsas de Criação d'O Espaço do Tempo, com o apoio do BPI e da Fundação "la Caixa". Nos dias 24 e 25 de novembro, os participantes tiveram a oportunidade de assistir às estreias absolutas de Cosmic Phase/Stage, de Ana Libório, Bruno José Silva e João Estevens, e Descansar, de Raquel S. / Noitarder.

+ Disponível em https://www.coffeepaste.com/artigos/critica/
+ Disponível na edição n.º 415 do jornal Folha de Montemor 

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