Companhia

João dos Santos Martins

Portugal
Convento da Saudação
23 JAN 2018 a 15 FEV 2018

Em 2015, decidi convidar 5 pessoas que não conhecia muito bem, e que não se conheciam entre si, para colaborarem na produção de uma peça. Este projecto era informado pela minha experiência na reconstrução de Continuous Project Altered Daily (1970) de Yvonne Rainer, que me marcara pela forma como o processo de trabalho convocava uma estética simétrica à sua obra, interligando modos de ver, de fazer e de pensar. Interessava-me, especialmente, a tensão criada pela discussão e prática de materiais coreográficos e partituras de dança preexistentes no corpo de um grupo, e no contraste entre o arquivo e performance daí resultantes.
Meses após a conclusão do Projecto, li numa entrevista à filósofa Maria Filomena Molder: "Sei que estamos prontos para continuar e depois começar quando uma coisa nos toca. E isso não é empatia, é sentir que aquilo vai entrar na nossa vida".[1] Estas palavras despertaram-me interesse em repensar o estatuto daquilo que fizéramos. Se, por um lado, Projecto Continuado tentava dar seguimento a uma série de práticas discursivas dos anos 60/70 que eu pensava estarem ausentes ou sem expressão nas práticas coreográficas contemporâneas, por outro, insistia na criação de condições para colocar um grupo em funcionamento num regime de horizontalidade, construído como trabalho de afetos. A relação laboral então imposta e os conteúdos propostos funcionaram num duplo sentido: ao mesmo tempo que praticávamos coreografias e discutíamos determinados assuntos, a nossa relação colectiva era igualmente afetada, redefinindo padrões de comportamento, confiança e desejo, ativados por esses mesmos materiais e vice-versa. Isto, como é óbvio, acontece em todos os trabalhos e processos, sendo que aqui nos interessou materializar essas relações e torná-las visíveis enquanto obra.
Em Companhia, continuaremos a investir na relação entre trabalho e labor em dança, entre estar a produzir algo e a ser produzido por essa mesma coisa, na distância entre processo e produto. Esta proposta, talvez esgotada na performance contemporânea, acarreta, no entanto, uma questão ontológica da própria dança sustenta no facto de ser o/a bailarino/a o/a executante do objeto coreográfico. O/A bailarino/a é o/a agente que dá visibilidade à dança, numa relação de esforço físico que faz o labor aparecer e desaparecer constantemente. Isto é óbvio quando, por exemplo, olhamos para os costumes da dança clássica, em que os bailarinos encolhem a barriga, regulam a respiração de forma controlada para que não seja percetível o trabalho colocado na execução dos movimentos, mascaram o esforço e escondem a exaustão.
No que à produção de movimento concerne, examinamos os estudos realizados por Rudolf von Laban nos anos 40, enquanto exilado político em Inglaterra. Em plena II Guerra Mundial, Laban desenvolveu, juntamente com o engenheiro Frederick C. Lawrence, uma análise de formas e movimentos para tornar mais eficaz o esforço dos operários, procurando eliminar os chamados "shadow movements", responsáveis por um grande dispêndio de energia e deficientes para uma produção continuada a longo prazo. A ideia fora contrariar o sistema Taylorista de produção massiva para abranger o bem-estar físico dos trabalhadores nesta tarefa, bem como a longevidade da sua vida ativa. Procurou-se uma ideia de corpo que funciona melhor combinada com um corpo que produz mais. Com isto, observamos como a regularização do corpo é afeta a uma lógica capitalista de produção, especializada e customizada. Apta-se o corpo à tecnologia e adapta-se a tecnologia ao corpo para melhor servir o capital.
Por outro lado, interessa-nos também rever como nos anos 60 surge nos Estados Unidos da América uma prática de dança implicada na redução dos pontos de tensão do corpo. Este foi um momento na dança em que os bailarinos deixaram de ser apenas instrumentos de tradução coreográfica e de resolução/representação espácio-temporal, mas surgiram como sujeitos e agentes constituintes desse objeto. Esta mudança, ativada conceptualmente pelos "pós-modernistas", abarca, no trabalho, uma componente pessoal intrínseca à subjetividade e bem-estar do bailarino. O trabalho na e da dança começa, então, por invocar um desejo dos bailarinos em encontrar uma técnica de eficácia de concretização de movimento e utilização energética, de redução de esforço como alternativa às técnicas modernistas que ostentavam formas de rigidez absoluta e grande tensão muscular. Desta procura surge o release enquanto técnica de dança como antítese a um corpo maquinal, pretendendo reconectá-lo com uma ideia de natureza física. Ou seja, um corpo e uma coreografia que respeitam as leis mecânicas, as articulações ósseas e musculares, sugerindo uma ideia de fluidez de movimento e de continuidade, ao mesmo tempo que servindo de gerador de prazer do corpo pelo corpo.
Interessa-nos, com isto, refletir sobre trabalho e bem-estar, a forma como a dança, enquanto cânon de produção de prazer recíproco (tanto do bailarino como do espectador) e difícil de identificar socialmente como "labor", interage com os seus modos e agentes de produção. Neste sentido, a ideia de "companhia" aqui presente implica também um modo de labor comum e pondera uma forma hegemónica de organização estrutural e administrativa em dança. Companhia como facto ou condição de ser com o outro ou ser com os outros, mas também uma forma de providenciar amizade ou prazer a uma pessoa ou grupo de pessoas numa sociedade.
João dos Santos Martins, Maio 2017

De João dos Santos Martins
Em colaboração com Ana Rita Teodoro, Clarissa Sacchelli, Daniel Pizamiglio, Filipe Pereira, Sabine Macher
Encomenda e coprodução Maria Matos Teatro Municipal
Apoio à produção e difusão Circular Associação Cultural
Residências artísticas Nave, O Espaço do Tempo, Estúdio Tóbis