canções i comentários - Exmo. Sr. Blarmino

Rui Catalão

Portugal
Convento da Saudação | Montemor-o-Novo
10 SET 2013 a 11 OUT 2013


um documentário cénico de rui catalão


Canções i comentários será um acto de resgate cultural; um documentário cénico sobre a música de Blarmino; uma narrativa sobre o seu talento e insucesso; um exercício de interpretação, escuta e encenação das suas canções, com suas histórias e anedotas; uma digressão pela memória recente de uma geração que nasceu depois do 25 de Abril e que parece cultivar o auto-apagamento; uma celebração musical colectiva.

Nesta peça, será contada a história de um músico e escritor de canções que no primeiro decénio do séc. XXI, antes de abandonar o país, concretizou um impressionante corpo de canções sobre a vida, os valores e as expectativas da sua geração, e que no entanto é totalmente desconhecido da generalidade do público.

A partir de gravações feitas em concertos, de entrevistas registadas em vídeo, da projecção das letras das canções para serem lidas e cantadas colectivamente, da narração de histórias, da reconstituição de temas ao vivo, assim como de comentários ao conteúdo das canções, Canções i Comentários é um convite para o público entrar na música da sua própria vida – ou como espectador em cena, ou cantando, ou partilhando as suas histórias e comentários pessoais, ou dançando ao som das músicas, ou descobrindo o seu lugar no interior do espectáculo.

Através das canções e das histórias de Blarmino, Canções i Comentários propõe fazer eco da voz, da palavra, da poesia, e do sentido histórico de uma geração inteira de jovens adultos sem ocupação aparente, sem emprego, que passou a sair à rua para expressar a urgência de encontrar uma presença activa na sociedade, mas que parece perdida na reivindicação de um caminho, para além da fuga – ou para dentro de si mesma, ou para fora do país.

Não se trata de reivindicar o mundo como ele deveria ser, mas de encontrar um lugar nele. Como canta Blarmino numa canção já escrita de Londres para os portugueses em 2012: "Boy/ Vou-te contar como até dói/ A bicharada emergiu do esgoto e invadiu/ o Cristo-rei// E uma a uma/ Até já não sobrar nenhuma/ Lá fui comendo a sumaúma / Da almofada em que repousei...// Toca lá essa/ antes que esqueça / Iá, curto cenas maradas/ O que é que se faz por aí?"

Neste solo acompanhado, Rui Catalão, assumirá o papel de narrador das histórias de Blarmino, assim como de comentador das suas canções, e eventualmente de intérprete;

João Bento (sonoplasta), irá captá-lo com uma perche (vara longa com um microfone acoplado na
ponta, usado em filmagens), acompanhando as suas movimentações entre a plateia e o palco;

Pedro Oliveira (músico, ex-Blarmino), fará a banda sonora, actuando num mini-palco dentro do palco, onde se concentram os instrumentos e a iluminação que caracterizam os concertos de rock; sozinho, irá gravar os sons dos diversos instrumentos que depois monta numa canção acabada, já fora de palco;

Cristóvão Cunha (desenhador de luz) irá operar em três níveis distintos: fará as luzes do concerto "fantasma" a acontecer no mini-palco; usando um "follow-spot", terá de acompanhar as incursões do solista em palco; fará ligações visuais com os efeitos de imagem a decorrerem no circuito de vídeo.

Jorge Jâcome (videasta) e We Are Interactive (efeitos de imagem) irão conceber os conteúdos de
imagem, entre o circuito de vídeo e o espaço cénico. Trata-se de estabelecer uma ligação entre as letras das canções e os testemunhos documentais, apresentados em vídeo, e a forma como esse
material irá saltar para o espaço cénico.

Quanto às gravações da música de Blarmino, serão outro veículo para o diálogo directo com o
público. O diálogo com o público, por seu lado, será uma forma de enriquecer o vínculo com as canções, e as histórias dessas canções, e os temas que elas abordam. Que finalmente deverão
informar um sentimento de partilha, e de pertença.


A estilista Azusa Dannohara desenvolve um trabalho muito particular na área de novos materiais
têxteis: o seu figurino, usado pelo solista-narrador, representará e dará corpo à figura ausente de Blarmino.


O público será também um elemento interveniente: nos diálogos com o solista-narrador; em momentos "karaoke"; em convintes à dança; e a tornarem-se figurantes em cenas que reconstituirão uma audiência de rock, no concerto-fantasma a decorrer no mini-palco.