Distopia

Ponto Teatro

Portugal
Convento da Saudação | Montemor-o-Novo
19 AGO 2013 a 31 AGO 2013



Segunda instância da 'Trilogia do Lugar', trilogia de experiências performativas sobre a temática do ‘lugar’ (topos) - utopia (estreia Setembro 2013), distopia e heterotopia - que partem da justaposição de textos dramáticos e não-dramáticos clássicos e textos de novos autores nacionais e internacionais na exploração da técnica de 'dètournement' como dispositivo formal.

Explorando a contaminação e cruzamento de linguagens assente numa ideia de
transdisciplinaridade sob uma mesma linha de investigação estética ‘intermédia’ comum às três instâncias da trilogia, prevê-se que as produções sejam apresentadas de forma individual até à estreia da última instância e a partir dessa altura sejam passíveis de serem apresentadas de forma consecutiva numa experiência performativa única, enquanto objecto artístico que desafie a percepção de ambos, intérpretes e público, das noções de espaço e do tempo, da noção de ‘lugar’. Parafraseando Foucault em 'des espaces autres' (1967), o exemplo do espelho faz com que este lugar que eu ocupo no momento em que eu me olho no espelho, por um lado, absolutamente real, conectado com todo o espaço que me rodeia, e por outro absolutamente irreal, uma vez que para ser apreendido tem que passar por este ponto virtual que está ali. No espelho, eu vejo-me 'ali' no espaço irreal. A imagem refletida dá-me a visibilidade de mim próprio onde eu estou actualmente ausente assim se materializa a utopia do espelho.

Mas também é uma heterotopia uma vez que o espelho existe na realidade, exortando na superfície do espelho uma forma de neutralização da posição que eu ocupo realmente. O lugar é deslocado, e o 'eu' é transferido para o 'outro' do outro lado do espelho. Partindo daquele olhar que me observa do outro lado do espelho, do interior daquele território virtual onde me vejo, eu retorno o olhar do 'outro' para mim mesmo, reconstruindo-me onde eu estou, através do 'outro'.

O desenvolvimento do projeto tem por base a técnica de détournement como ferramenta facilitadora do processo criativo, na busca de novas linguagens, uma técnica com reconhecido potencial na procura de novos significados e funções para conceitos, noções e práticas pré-estabelecidas. Como sugerido em 'Dètournement as Negation and Prelude' pelo SI em 1959: ‘Dètournement, ou seja, a reutilização de elementos artísticos pré-existentes num novo ‘ensemble’, tem sido uma presença constante na arte contemporânea avant-garde. As duas leis fundamentais desta técnica são a perda de importância de cada elemento artístico em si mesmo (podendo mesmo perder o seu sentido original) e ao mesmo tempo a reorganização de um novo ‘ensemble’ que confere a cada elemento um novo significado e efeito. É, antes de mais, a negação do valor de uma organização prévia de expressão. O Dètournement tem um poder peculiar que obviamente provém do seu duplo significado, do enriquecimento da maioria dos objetos artísticos através da coexistência, em si mesmos, dos seus antigos e novos significados'.

O projeto Utopia, por sua vez, aposta na nova escrita portuguesa uma vez que em cada instância da trilogia um novo autor será convidado a produzir texto num processo ativo a partir da sala de ensaio, cruzando influências e conteúdos de textos clássicos na produção de texto tipo palimpsesto, que justapõe diferentes épocas e espaços, sob o mesmo signo ou conceito, neste caso especifico, o conceito de distopia, aqui explorado.

A residência no Espaço do Tempo, Montemor-o-Novo, desenvolverá estes conceitos e questões, desenvolvendo assim a segunda instância da Trilogia do Lugar, com o núcleo criativo da Ponto Teatro, nomeadamente, Emanuel de Sousa, director artístico da estrutura, Daniela Gonçalves, Rita Vieira, Olinda Favas e Pedro Miguel Dias, entre outros.