Captado Pela Intuição

Tânia Carvalho

PT
Convento da Saudação
10 OUT 2016 a 07 NOV 2016



Existe uma urgência em se achar um pretexto para a criação artística. Mas há vezes em que, quanto mais penso nesse pretexto, mais a força criativa se desvanece. O pretexto está lá. Penso que sim. Mas ao tentar desvendá-lo, dá-se a conhecer distorcido. Distorcido pelo tentar entender através de discursos de pensamento. Esses discursos de pensamento bloqueiam o fruir das minhas ideias criativas.

Os pensamentos desenvolvidos à volta das ideias para a criação de uma peça, são sempre feitos depois de a ideia ter surgido, e por isso, feitas por mim enquanto espectadora dessas ideias, e não como criadora das mesmas. Sempre (ou quase sempre) uma mera interpretação de mim para comigo. Mais complexo ainda, é tentar organizar essa minha interpretação de forma a dá-la a entender a outro. Mas eu não quero dar a outro a minha interpretação das minhas ideias. Quero antes mostrar as minhas ideias para que esse outro as interprete ele mesmo. Ou não.

Quando faço um solo. Este processo é muito forte. Estou a criar de mim para comigo. Faço movimentos, e não sei muito bem de onde eles surgem. Entrego-me a eles com mais ou menos intensidade da mesma forma intuitiva com que são criados. Deixo-os surgir, sem esforço. Quase como se não fizesse nada. Quase como se deixasse a dança fazer o que tem a fazer. Sem juízos. Penso nos movimentos, claro que sim. Mas sem querer dar-lhes uma razão para existirem.

Nem sequer me lembro já, quando me surgiu a ideia de querer fazer outro solo. Talvez uma imagem, imaginada, de uma expressão facial feita por mim. Que está comigo ainda, e sei bem qual é. Só não sei explicar porque me surgiu esta imagem. Só sei tentar interpretar.

Este texto serve meramente para tentar dar um pretexto a este solo. Não serve para
explicar o que eu penso da criação artística em geral. Nem sequer da minha.