Auto-Intitulado (2015)

Um projeto de e por Cyriaque Villemaux e João dos Santos Martins

Portugal e França
Convento da Saudação
09 JUL 2015 a 17 JUL 2015

Primeiro surgiu a ideia de uma peça para a qual o João tinha apenas um título: Auto-Intitulado. Isto tanto era enigmático como, de alguma forma, obscuramente referencial. O título trouxe duas coisas consigo. Uma: a imagem de um cobra e a imagem literal que esta cria por si só. A outra: a memória de um prática abandonada por uma amiga. A ideia seria gravar improvisações de dança de forma a analisar padrões recorrentes de movimento e, possivelmente, enunciá-los. Foi aqui que Auto-Intitulado se materializou pela primeira vez.

Voltando ao processo de gravação de sequências de improvisação de dança, talvez seja agora necessário relacioná-lo com a palavra "repetição". Esta pode ser interpretada como um ensaio de dança - a necessidade de repetir um movimento - mas também pode evocar a ideia de recorrência ou ressurgimento. Esses padrões insistentes tomariam a forma de imagens intermitentes, como flashes. Isto significa que alguém poderia dizer: "(...) sim, quando fazes este movimento, tipo (...)". A imagem que retém a atenção podia provocar esta designação (1) por ser de alguma forma comum na dança contemporânea (porquê? desde quando? quem? Exemplo: Quem é o culpado por ser a primeira pessoa a cunhar o termo não-dança, e porque razão terá feito tal coisa?) ou (2) por estar associada a quem improvisa (exemplo: este bailarino/a é conhecido/a por gostar de rodar sobre si próprio), ou (3) por ser desconhecida e, assim, estranhamente marcante.

Em vez de olharmos para a improvisação como um todo, como uma sucessão de eventos indiferenciada, o ponto de partida seria o de observá-la em fragmentos, stills. Seriam extraídas imagens de uma improvisação a fim de serem analisadas e mais tarde aumentadas ou desenvolvidas de acordo com o que elas sugerem. Isto permitiria, por um lado, um olhar mais atento para o que pode ser chamado de "clichê", mas, por outro, serviria também para tentar encontrar pontos de fuga a esses mesmos clichés, e relançar a imaginação onde ela parecia findada. Por exemplo, se por um segundo

surgisse a imagem de uma mulher vestida num traje do século XIX, talvez pudesse ser feita uma digressão a partir daí. Esta digressão incluiria um tempo fora do estúdio, procurando e analisando outras imagens, e um tempo de regresso ao estúdio onde esta invenção intuitiva seria investida em novas improvisações. O resultado poderia ser uma improvisação de três minutos alargada a uma hora.

Este processo de improvisação contém uma sensação de infinito, por um lado, pelo facto de não haver necessidade de se parar e, por outro, pelo facto da recorrência impor uma ideia de recomeço. Os dois significados de repetição encontram aqui um lugar de diálogo: o que é repetido durante as repetições? De que forma é que o hábito de se filmar com uma câmara de computador Mac (puro fenómeno dos anos 2000) está relacionada com o estúdio de dança - o aquário? Como é que essas imagens podem ser olhadas? Será que a necessidade de ensaiar reside na possibilidade de visualizar aquilo que se repete?

Em 2013, João e Cyriaque elaboraram juntos o catálogo de um exposição que nunca viram. Como qualquer catálogo este incluía uma entrevista. Sendo eles os únicos protagonistas da ausência, questionaram-se entre si. A conclusão foi continuar com a discussão fora do catálogo. Vamos postular que o tipo de processo que descrevemos acima fará apenas sentido se partilhado por duas pessoas, sendo, portanto, a continuação ideal da nossa colaboração passada. A discussão lançada partia de questões sobre trabalho colaborativo e a prática artística. Pareceria lógico testar essas questões no projeto presente. O que é que, na improvisação, se pode referir ao comum naquilo que é repetido?

A forma que este trabalho terá não está ainda definida, mas pode-se esperar um solo de dança compartilhado por duas pessoas. Um livro de imagens.