Arrastão

Lander Patrick (Jones Lopes&Lander Patrick)

Portugal
Convento da Saudação | Montemor-o-Novo
24 NOV 2014 a 02 DEZ 2014

Em Arrastão, o espectador é convidado a engajar-se activamente na construção de paisagens rítmicas. Aprendido o léxico que determina a comunicação entre o performer e o público, as fronteiras espaço de acção/espaço de observação vão-se diluindo.

O performer que é bailarino, que é maestro, que é iluminador, que é sonoplasta, que é um polvo, articula um eixo de orquestrações que constituem uma matéria performativa comum.

Arrastão esculpe um acordo coreográfico entre performer-espectador e espectador-espectador, navegando numa relação triádica, em que o singular determina o todo, o todo inspira o singular, e o todo contamina o todo.

Arrastão é uma dança-concerto dirigida por um maestro que dirige em tempo real a luz, som e o público.

Este projecto surgiu após os meus primeiros contactos com o soundpainting, uma linguagem estabelecida através de códigos universais para um corpo cénico multidisciplinar. Com mais de duas décadas de maturidade, Walter Thompson, fundador e actual maestro de soundpainting, criou um método de composição em tempo real aplicável a músicos, cantores, bailarinos, actores e artistas multimédia que comunicam entre si e com o maestro, através de 1200 gestos.

Enquanto performer e practicante de soundpainting, interessou-me pesquisar um diálogo organizado através destes signos e perceber que possibilidade há para a liberdade do gesto dentro de uma estrutura dominante, ou que diferentes mecanismos de interacção com os outros performers poderão surgir, ou ainda, como a heterogenia dos performers poderá coexistir na mesma acção, através da direcção do soundpainter.

Tomando consciência do entusiasmo que sentia enquanto agente activo da acção, ao qual é dada a oportunidade de com a sua participação modificar a textura da acção, cheguei à conclusão que queria que o espectador fosse esse agente ativo. Não pretendo a emancipação do espectador, mas sim trazer à própria ideia de participação, um tom trivial, playfull, conseguido pelo performer/maestro, quiçá entertainer.

O Espectador como dispositivo cénico

O espectador de soundpainting assiste normalmente ao diálogo formal entre todos os performers dirigidos por um maestro que tradicionalmente se posiciona de costas para o público, voltado para os que vão materializar a acção sugerida.

Em Arrastão, o público está dividido em duas bancadas, dispostas frente a frente, sendo o lugar de acção do maestro o espaço negativo entre públicos. O facto de o público poder observar-se mutuamente e interagir musicalmente reforça a sua integração no espaço cénico, sublinhando a importância do seu papel enquanto agente propulsor da performance. O auto-voyeurismo é uma ferramenta fundamental para a própria a contaminação da participação.

Através da dança como retórica sedutora, o maestro, vai driblando o espectador, a luz e som num entusiasmo histérico. Começando por atrair o público através da dança da orquestração, o maestro dança a direcção das luzes, dança a orquestração da música. Coordena música com luz, desfoca, foca, transforma a cor da luz, coordena o silêncio com as sombras, e os decibéis com o movimento. Através deste strob de orientações, pretende criar o momentum convidativo para a colaboração do público, de forma a culminar a performance numa experiência interactiva. Interactiva no seu real âmago, já que enquanto o público é primeiramente seduzido e depois incitado a participar neste modelo comunicativo, o próprio maestro é fisicamente afectado pela resposta do mesmo, um alimento para a sua própria excentricidade.

Arrastão pesquisa a relação performer-espectador e espectador-espectador, navegando numa relação triádica, em que o singular determina o todo, o todo inspira o singular, e o todo contamina o todo.

Ficha artística

Coreógrafo e intérprete Lander Patrick (Jones Lopes&Lander Patrick)

Interprete e Participação especial Jonas Lopes

Consultoria artística Jonas Lopes e Margarida Bettencourt

Desenho de luz Carlos Ramos

Produção executiva e difusão Produções Independentes / Tânia M. Guerreiro

Co-produção Centro Cultural de Belém, Materiais Diversos, Open Latitudes, Panorama

Apoio residências artísticas CoLABoratório Panorama, PACT Zollverein, Centro Cultural de Belém, Espaço do Tempo

Projecto financiado no âmbito do protocolo tripartido entre o Governo de Portugal-Secretário de Estado da Cultura/DGArtes, Materiais Diversos e os municípios de Torres Novas, Alcanena e Cartaxo

Estreia Centro Cultural de Belém, 27 de Março 2015

Apresentação Festival Materiais Diversos, Setembro 2015

Duração 45 min