A Tecedura do Caos

Tânia Carvalho

Portugal
Convento da Saudação | Montemor-o-Novo
04 AGO 2014 a 17 AGO 2014

 

O corpo da Odisseia de Homero, olhado como o objecto monumental que representa por princípio algumas das leis fundamentais da poesia épica, é o de um percurso infinito de regresso que conduz a um reencontro, e, por fim, a uma espécie particular de redenção do seu herói. A sua forma escrita põe em cena a fusão de uma crença inabalável e dos obstáculos que se erguem à sua frente, de uma esperança confiante e da dor trazida pela espera angustiada da união final. A sua forma movente, em contrapartida, quer traduzir esta intimidade do anseio e da luta constantes num abismo que é forçado a tornar-se um caos vivo.  

A mera intenção de transpor algo como a Odisseia para o território da dança constitui por si mesma uma provação e uma deambulação autónomas, pois implica a mistura e a junção de todas as figuras de que ela é feita – e por isso torna clara a urgência, não tanto da sua assimilação ou da sua adaptação, mas da sua transfiguração absoluta. É por isso que não pode haver garantias, mas apenas risco e perigo; nenhuma evolução manifesta, mas apenas a sobreposição da desordem e do distúrbio interior.

São esses, aqui, os princípios da composição: uma infidelidade crua, mas firme, ao texto de Homero, e a invocação da sua esfera mais obscura, redefinindo-o nos seus próprios termos, ao mesmo tempo que tenta reagir instintivamente às exigências da dança e do movimento.  Por isso mesmo, não pode haver nem progressão nem mediação, e o método não é narrativo ou sucessivo, mas descontínuo e oblíquo: a conjunção do sincronismo e da oscilação dos dois planos tem de tornar visível o retraímento e o desdobramento incessante – mas não inquebrável ou dormente – das figuras no palco. Um grupo maior ou menor de intérpretes irá incorporar e dar vida a uma única personagem individual, da mesma maneira que uma só personagem irá transformar-se constantemente numa massa de muitos bailarinos.

A personificação de Penélope é feita do lamento e da nostalgia que se perdem na desolação das lágrimas, mas não menos sustida pelo seu engenhoso tecer do manto, feito durante o dia e desfeito a meio da noite. Da mesma maneira, a visão do regresso a casa, em Ulisses, está em perfeita simetria com a sua astúcia, com a sua sagacidade em urdir o plano que lhe permite escapar a todos os perigos e alcançar a vitória sobre os seus adversários. São ambos tecedores, dilacerados entre o sofrimento e a acção. O sentido doloroso da expectativa que os liga é representado pelos dois extremos que ambos trazem à luz do dia, como que em carne viva. A sombra repleta de vida do cansaço e da exaustão faz aumentar o desejo, em vez de o enfraquecer, e a intensidade do desejo transforma o corpo exausto em obstinação e perseverança.

Toda a sensação de tenacidade e de persistência inexorável irá então trespassar os movimentos concretos dos bailarinos, num espaço circunscrito. Assim que se deixam cair no chão, logo se levantam, falham e tentam de novo, do princípio, recuam e imediatamente se expandem para diante, retraem-se apenas para ressurgirem de novo, incessantemente, vezes sem conta –  insistentes, incansáveis e implacáveis.

Este movimento é a areia movediça da Odisseia, o seu salto exultante e o seu silêncio à espreita. Enquanto agita e sacode a sua percepção de si próprio, fica a braços com a intuição da sua representação deixada em pedaços, sempre levantada e sempre quebrada pela inquietação em que subsiste, pelos braços e pelas pernas, pela cabeça e pelo torso dos intérpretes, e torna-se assim inevitavelmente descentrado – ex-cêntrico, no sentido literal. A possessão que se apodera dos corpos aumenta até ao limite do tumulto e da loucura, até que se dissolve de novo e cede, entrega-se ao seu próprio desaparecimento. É a pura reciprocidade da eclosão e do apaziguamento. Assim é a consciência perplexa e frenética da dança, mesmo quando procura esquivar-se à sua vocação divina: ela persegue ainda, como é dito algures na Odisseia, o acto de percutir, de bater com os pés faiscantes no solo sagrado – mas agora virado do avesso e posto fora de si.

Bruno Duarte

 

Ficha artística:

Coreografia | Tânia Carvalho Intérpretes | Anton Skrzypiciel, Allan Falieri, André Santos, Bruno Senune, Catarina Felix, Cláudio Vieira, Gonçalo Ferreira de Almeida , Leonor Hipólito, Luiz Antunes, Luís Guerra, Maria João Rodrigues e Petra Van Gompel. Música |  Ulrich Estreich Figurinos | Aleksandar Protic Desenho Luz | Zeca Iglésias Desenho de cenário e Imagem depromoção Jorge Santos

Produção | Bomba Suicida Produção e difusão | Sofia Matos Co produção: Les Subsistances (Lyon), Biennal de la Danse de Lyon (Lyon), Théâtre de la Ville com Les Spectacles vivants-Centre Pompidou (Paris)Maria Matos Teatro Municipal (Lisboa), Centro Cultural Vila Flor (Guimarães), O Espaço do Tempo (Montemor-O-Novo), Teatro Virgínia (Torres Novas), Teatro Viriato (Viseu) .Residência Artística | Les Subsistances and Biennal de la Danse de Lyon (FR); O Espaço do Tempo; Materiais Diversos / Centro Cultural do Cartaxo (PT) Apoio: Rede Cinco Sentidos - Maria Matos Teatro Municipal, Centro Cultural Vila Flor, Teatro Virgínia, Teatro Viriato, e Teatro Académico Gil Vicente, O Espaço do Tempo e Alkantara (Portugal)

 

A Bomba Suicida é uma estrutura apoiada pelo Governo de Portugal - Secretário de Estado da Cultura e Direção Geral das Artes.

 

RESIDÊNCIAS
- De 15 a 31 Janeiro 2014 - Residência de pesquisa e criação artística, Hellerau - European Center for the Arts Dresden, (DE)
- De 04 a 17 de Agosto 2014 - Residência de criação artística, O Espaço do Tempo (PT)
- De 01 a 18 Setembro 2014 - Residência de ensaios e experimentação técnica, Les Subsistances, Lyon (FR)

ESTREIA/APRESENTAÇÃO 2014:
- 19, 20, 21 e 22 Setembro – Angar Sâone, Les Subistances - Biennal de la Danse de Lyon (França)
- 24 a 26 Setembro – Centre Pompidou, Théâtre de la Ville com Les Spectacles vivants-Centre Pompidou (Paris)