Masterpiece

João Martins

Portugal
BlackBox - Montemor-o-Novo
20 MAR 2014 a 31 MAR 2014

Originalmente, no sistema de guildas europeu da Idade Média, o termo masterpiece referia-­se a uma obra de arte produzida por um aprendiz que aspirava a obter o título de mestre artesão. Iniciado no contexto de um mestrado em estudos coreográficos, Masterpiece (2013) era também o projeto que nos validaria tal título. Se bem que, para nos tornarmos mestres em/de coreografia, teríamos de dominar ("master") a técnica de coreografar, optámos pelo caminho oposto, ou seja, sermos dominados ("mastered") pela própria coreografia. Masterpiece (2013) é, portanto, um projeto no qual tentamos ser coreografados contrariamente a coreografar.

Na década de 60, Yvonne Rainer usava objetos para se mover e ser movida por qualquer coisa que não fosse por ela própria ("Move or being moved by something rather than by oneself"). Ela propunha liberar o gesto criativo, deixando-­se influenciar por condições que lhe fossem exteriores e objetivas. Assim, o movimento que produzia partia de uma função do dia-­a-­dia, um ready-­made, como, por exemplo, transportar uma cadeira de um lado para o outro do palco. Propostas semelhantes estavam igualmente presentes no Ballet Triádico (1922) de Oskar Schlemmer, cujo guarda-­roupa, disforme, pesado e volumoso, ditava a forma como o corpo dos bailarinos se movimentava, indicando a sua própria coreografia.

Ao pensarmos em agentes externos que impõem condições na agência dos corpos, pensamos igualmente nos processos de adaptação que caracterizam a evolução das espécies. Segundo tal, os organismos estão equipados com uma capacidade plástica que lhes permite adaptar-­se diferentemente, conforme os seus habitats. Isto explica, de uma forma simplificada, a diversidade de espécies e o processo de especiação pelo qual esta ocorre. A adaptação é, portanto, e em primeiro lugar, um processo, um processo pelo qual os seres vivos (ou mesmo não-­‐ vivos) se modulam às condições externas que ocupam.

Procedimentos contemporâneos, como a tropicalização, apropriam artificialmente o processo de adaptação, com o objetivo de adequar equipamentos elétricos a funcionar corretamente na zona dos trópicos, onde a temperatura e humidade são geralmente extremas. Por outro lado, poderíamos chamar do tropicalização (inversa) aos projectos urbanísticos que transformam um determinado ambiente "ocidental" num local aparentemente tropical, recorrendo frequentemente à plantação excessiva de palmeiras, como é o caso de várias cidades em Portugal.

Masterpiece (2013) desenvolve-­‐se a partir de princípios semelhantes, usando a manipulação de objetos e uma série de desafios ambientais que nos fazem coreograficamente adaptar às condições externas, artificialmente encenadas. Através de uma metodologia repetitiva, exaustiva e progressiva, por etapas, procuramos o equilíbrio da relação entre objetos materiais e corporais. Da mesma

forma, questionamos a qualidade de auto-­‐adaptação como um imperativo ético, cuja base assenta nas relações entre os seres humanos e os seus ambientes, não só atmosféricos, mas globais.

Além disso, Masterpiece (2013) investiga o próprio ato de coreografar, tentando estetizar o processo pelo qual o corpo se conforma ao movimento, tornando visível o processo de elaboração, escrita e incorporação coreográficas.

 

Ficha Artística

Conceito e direção João dos Santos Martins
Coreografia e interpretação Ana Maria Krein, François Geslin, João dos Santos Martins e Lynda Rahal

Música a partir de excertos de composições para ballet de Adam Adolphe, Benjamin Britten, Léo Delibes, Herman Severin Løvenskiold, Jean-­Baptiste Lully, Jean‐Philippe Rameau, Ferdinand Herold, Piotr Ilitch Tchaikovsky

Co‐Produção Centre Chorégraphique National Montpellier Languedoc-­‐Roussillon

Agradecimentos Annie Tolleter, Estelle Gautier, Laurent Pichaud, Mathilde Monnier, Min Kyoung Lee, Renata Piotrovska