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Vamos sentir falta de tudo aquilo de que nao precisamos
Vera Mantero & Guests  Portugal
18 maio a 07 junho 2009
Convento da Saudacao

"Devemos ter sempre em mente os autores essenciais do séc. XX, não por termos de os imitar, o que é impossível porque a nossa situação é extremamente diferente da deles, mas porque, num certo aspecto, continuamos aparentados: eles também criaram obras numa época em que já se dizia que as obras tinham deixado de ser possíveis".
Peter Sloterdijk, “O Sol e a Morte”

Como é que se faz uma peça agora? agora que já não tenho 20 anos, nem 30, agora que o niilismo democrático de que fala o Belhaj Kacem já fez todo o possível para se infiltrar em mim, agora que já não tenho aquela inocência, naiveté, etc, de que falo por aí numa nota tirada algures (“parece necessário mantermo-nos num certo lugar de pureza, de crença, de inocência, de ingenuidade, de limpeza, para continuar a criar. para não entrar no cinismo”), agora que já fiz até algumas peças nesta fase, ou seja, estar nesta fase nem impossibilita fazer peças, mas nem me confessava estar nesta fase, de tanto medo que tinha disto, nesta fase em que já tinha percebido que nada muda nada.


E no entanto, estranhamente, sinto que já não estou nela.

Bom, e então, o que é que posso dizer, a esta altura do campeonato?

Posso dizer que me agradou imenso ler recentemente estas palavras da Valeska Gert que datam de 1931:
« Nunca faço questão de compor um arranjo de passos particularmente engenhoso. Pego apenas nos passos mais necessários e nos mais simples. (...) Aquele que cria a partir do espírito e da alma não pode e não deve ter em conta movimentos que se desenvolvem apenas a partir de outros movimentos. Não acredito que através de um arranjo hábil de movimentos corporais qualquer coisa de psíquico se possa tornar visível. A arte gosta de fugir à habilidade. (...) Ainda nunca fiz trinta saltos e quarenta giros encadeados, mas sei que poderia fazer esses trinta saltos e esses quarenta giros a partir do momento em que sentisse necessidade disso. (...) É por isso que o treino corporal é secundário. Mas o treino da alma é indispensável. (...) Uma dança pode consistir apenas em alguns gestos da mão, numa cabeça que se balança ou num braço que se estica, nada mais, e será uma dança se houver o movimento da alma por trás ».

Posso dizer também que reparei há pouco tempo no facto de que armas e exércitos têm estado muito presentes no meu trabalho. reparei em como continuo profundamente interessada na natureza da violência, na natureza da nossa violência. continuo profundamente impressionada pela nossa capacidade de selvajaria. (a propósito, o Goethe era contra as revoluções; ah, e a propósito, também continuo profundamente impressionada pela nossa capacidade de poesia).

E continuo a sentir de forma premente esta (pelo menos curiosa) necessidade de ver que somos um animal. esquecemo-nos muito disso, não é? porque é que decidimos ver-nos como estando fora do reino animal? somos um animal absolutamente extraordinário. e somos um animal domesticado. mais ou menos domesticado. urgente vermo-nos como animais, tal como é urgente vermos que no prato temos um pedaço de um cadáver e não um bife.
estou sempre espantada com as pessoas, sempre espantada que haja pessoas, que essa criatura possa ser possível.

Posso dizer que tenho reparado na curiosa estrutura de uma conversa, as conversas têm estruturas muito interessantes. nós percebemo-las perfeitamente enquanto “lá estamos dentro” mas elas por vezes dão saltos enormes e não fazem sentido nenhum (nós no entanto percebemos-lhes os sentidos...), ou pelo menos dão saltos de sentido surpreendentes. o que é surpreendente é não estranharmos esses saltos, não estranharmos essa estrutura, percebermo-la tão perfeitamente por dentro.
Um dia gostava de fazer uma peça que tivesse a estrutura de uma conversa. a ver se depois estranhavam ou não. e dessa forma seria obrigada a falar de uma série de coisas, boas e más, novas e velhas, pequenas e grandes, usando uma série de meios, uma série de meios, também eles bons e maus, novos e velhos, pequenos e grandes.

Também tenho reparado em como, quando observamos uma pintura ou um qualquer objecto inanimado, podemos fazer o nosso olhar percorrer vezes sem conta, as vezes que quisermos, essa pintura ou esse objecto. e essa pintura e esse objecto estão construídos de modo a produzir esse movimento dos nossos olhos, a induzi-lo; os ritmos e cadências dessa imagem produzem esses percorreres do olhar.
Num espectáculo não podemos re-olhar, não podemos ficar a percorrer o objecto à nossa vontade. o espectáculo vai ter que oferecer essa oportunidade. vamos ter que repetir de forma a que as pessoas possam re-ver, re-ouvir, re-capturar. voltar a reproduzir formas e sublinhar cadências.

Posso dizer que gostava de experimentar um modo de organizar o processo de trabalho um bocadinho copiado do do cinema, a ver o que é que acontece.
Escrever, rodar, montar, rodar de novo (as cenas que na montagem se percebe que faltam), fazer a montagem final. só gostava de lhe acrescentar um período de experimentar antes do período de escrever, que é fase que me parece fazer um pouco de falta no cinema. em dança imagino que escrever continue a ser escrever (verbalmente e talvez com imagens), rodar deve ser colocar o que se escreveu no corpo dos performers, montar deve ser compor com os materiais assim surgidos, rodar de novo deve implicar talvez escrever de novo um pouco e voltar a colocar nos corpos, montagem final deve querer dizer composição final.
E depois ainda há um bónus especial e não existente no cinema, que são as energias que correm nos dois sentidos entre cena e público, e que produzem ainda uma última recomposição final.
Posso dizer que me farto de reparar na liberdade que tenho, apesar de tudo nesta Europa. 
tão diferente da liberdade que reparo que os outros não têm em tantos outros continentes. e como dou valor a isso. e como, estranhamente, tantas vezes parecemos desperdiçá-la.
Liberdade que, no trabalho, é vivida por dentro e por fora, é origem e destino. 
posso dizer ainda que reparo que o meu trabalho tem girado à volta de alguns pontos fulcrais e que não me parece que deixe agora de repente de o fazer (mas nunca se sabe!): 
combinações não-redundantes, línguas viradas do avesso, o corpo vibrando e metamorfoseando e abrindo, o desfalecer de mãos vazias enquanto tesão, um tempo outro.


E já agora, com o que é que se parece uma vida que vale a pena ser vivida?

   




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co-produçao o espaço do tempo

Direcção Artística
Vera Mantero

Interpretação e Co-Criação

Christophe Ives, Marcela Levi, Miguel Pereira e Vera Mantero

Dispositivo Cenográfico e Figurinos

Nadia Lauro

Adereços

toda a equipa

Colaboração Dramatúrgica
Rita Natálio

Música e Sonoplastia
Andrea Parkins

Luzes e Direcção Técnica
Erik Houllier

Produção Executiva
O Rumo do Fumo

Co-Produção

Alkantara Festival/Lisbon
Culturgest/Lisbon
Kunsten Festival des Arts/Brussels
Festival Montpellier Danse 2009
Teatro La Laboral/Gijón

Co-Produção e Residência
CNDC/Angers
O Espaço do Tempo/Montemor-o-Novo
PACT Zollverein/Essen

Apoios
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Centro Cultural Vila Flor/Guimarães
Atelier Re.Al/Lisbon

 

O Rumo do Fumo é uma estrutura apoiada pelo Ministério da Cultura / Direcção Geral das Artes