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Abrir o horizonte
Portugal entrou abruptamente nas grandes mudanças dos anos 90,com um enorme déficit cultural e uma democracia ainda jovem. Num espaço de poucos anos, chegámos à Europa, assistimos à queda do muro de Berlim, mergulhámos na revolução tecnológica e sucumbimos à globalização. De repente havia dinheiros a rodos, um carro para cada um, as televisões privadas tomaram conta da nossa paisagem mental e extasiados descobrimos o vídeo, a Internet, o telemóvel e o betão das nossas auto-estradas. A banca privada acompanhou o boom, o crédito disparou, e para coroar este admirável cenário construímos uma série de monumentais estádios de futebol que serviram para alimentar a nossa reduzida auto estima de país periférico do sul. As grandes mudanças estruturais que afectaram a nossa sociedade decorreram igualmente em todo o mundo e particularmente na Europa. No entanto, a generalidade dos países europeus estava amplamente preparada por décadas de investimento na educação, na cultura e respaldada por sólidos hábitos de democracia e cidadania. Desta forma, o encaixe do deslumbramento foi relativizado pelo peso da experiência. Muitos dos importantes investimentos estruturais que Portugal realizou não geraram uma verdadeira qualidade de vida, nem uma ampla democracia. Não é por acaso que temos cada vez mais escolas e clínicas privadas e o fosso entre os ricos e pobres continua a aumentar. Hoje em Portugal, “o mainstream” social continua a ser absolutamente redutor. Há demasiado futebol, jornais desportivos, relatos televisivos e estádios na vida dos homens portugueses. Tal como há demasiadas telenovelas, programas de celebridades e revistas de coração na vida das mulheres portuguesas. E seguramente demasiada playstation, messenger e sms na dos jovens. E, definitivamente, demasiado “centro comercial” na vida de todos. A consequência de tudo isto é a redução do pensamento ao mais básico dos níveis, a legitimação do lixo televisivo com a respectiva entronização dos seus ídolos de pacotilha. Em suma, o abdicar dos mais elementares valores individuais pelos quais se rege o ser humano em sociedade, e o adormecer da massa crítica de cada um e do enorme potencial criativo que esta representa. Nem a própria burguesia portuguesa espartilhada pelos seus rituais de formatação, conseguiu criar uma elite culta e assertiva. Ela própria, historicamente detentora de alguns padrões de bom gosto (ou de gosto oficial) acabou, salvo raras excepções, seduzida pelo mesmo mainstream, ver até pela crescente cultura “pimba”… definitivamente recuámos… Estamos mal e estaremos ainda muito pior se nada fizermos. Continuaremos a deitar o lixo pela janela, a conduzir irresponsavelmente, a ter inveja do vizinho, a falar todos ao mesmo tempo, a faltar aos nossos compromissos e arranjar desculpas para tudo, no fundo, continuaremos a abdicar de uma cidadania adiada e de um projecto nobre de país. De que serve um choque tecnológico se não alterarmos, justamente, esta conjuntura de debilidade mental e de desresponsabilização colectiva? Teremos ainda mais computadores, mas seremos, no entanto, ainda mais dependentes e menos críticos. De que serve a tecnologia sem a respectiva massa crítica do utilizador? De facto, e apesar de um acesso já muito vasto à internet, somos hoje o seu mais básico consumidor em toda a Europa. É que, muito mais importante do que o acesso à informação é a selecção dessa mesma informação, algo que só se consegue apostando na qualificação de quem a utiliza. E perante um desastre anunciado, a única saída é apostar nesta mesma qualificação, e recusar um certo niilismo, ver fatalismo, tão próprios da sociedade portuguesa. O que torna a situação preocupante é que no topo (de onde vêem os exemplos) e nas estruturas hierárquicas intermédias, há igualmente, demasiada ignorância, falta de qualificação e hábitos retrógrados, factores que se tenderão a perpetuar e auto-reproduzir: existe demasiada política na política e demasiado corporativismo nas mais diversas áreas da nossa sociedade. Depois do diagnóstico feito, percebemos de que nada serve administrar mais fármacos ao doente, e o que é necessário é alterar os seus hábitos e actuar na sua estrutura de funcionamento. E isto só se consegue com o acesso à Cultura, e uma verdadeira revolução na Educação. Um investimento nas consciências que privilegie as estratégias e os modus operandi e não o armazenar de mais conteúdos. Uma Escola aberta à Cultura e ao mundo, promotora de um ensino vivo e integrado com a realidade, que abra espaços de agilidade mental e a dúvida enquanto método e prepare os cidadãos para uma sociedade em vertiginosa transformação. A reforma, digo, Revolução do Ensino, é sem dúvida o eixo fundamental desta equação – é urgente avaliar o que está mal e ter coragem para mudar e começar pelo princípio – apostar na formação dos formadores e na requalificação dos agentes de ensino. Dispensar todos aqueles que sabotam o acto educativo e recompensar os que verdadeiramente o abraçam. Motivar a escola e colocá-la no centro da comunidade. Investir por exemplo, no primeiro ciclo do ensino básico, habitualmente conhecido como ensino primário, e frequentemente relegado para ultima opção: ser exigente nos conteúdos, mas integrá-los desde o início com a realidade e abrir a escola ao exterior. Sempre que possível anteceder a prática à aprendizagem teórica dos conteúdos – “aprender fazendo”, para além de motivador é muito mais eficaz na ancoragem das aquisições, pois envolve o espaço emocional do aluno. O acesso à cultura e às actividades artísticas desde os primeiros anos é essencial e abre espaços de diálogo com o outro, promovendo uma escuta activa, indispensável numa sociedade em que todos falam ao mesmo tempo. Envolver os pais com a escola de uma forma criativa é, por exemplo, uma excelente forma de questionar alguns hábitos parentais menos lúcidos e dinamizar o trinómio pais – professores – alunos. Responsabilizar os pais para o acto educativo é, igualmente, indispensável e passa por opções muito importantes de governação, campanhas mediáticas, apelos à cidadania, motivação para a construção de um verdadeiro projecto social em, que a família está no centro e não o consumo: a escola não pode continuar a ser um depósito para os filhos e os professores não podem substituir os pais. Escolas de pais e centros de apoio à família são alguns dos projectos de coesão social necessários neste percurso. Não podemos continuar a ter um ensino esquizofrénico que, ora despeja conteúdos sobre os alunos, ora os entretém nos tempos livres para os controlar. Temos de sair de um sistema de controlo para um sistema de motivação em que o acto de aprender é criativo e estimulante. Isto pressupõe um enorme investimento financeiro ao nível das actividades práticas em cada disciplina, nos laboratórios, nas visitas de estudo e nos espaços de convívio, que fazem os alunos sentirem-se “em casa” dentro da sua escola. É urgente diminuir a carga horária dos alunos: existem conteúdos a mais e pouco interessantes. É fundamental concentrar o ensino nos conteúdos que verdadeiramente são necessários e aprofundá-los. Os alunos passam demasiado tempo na escola, as crianças não têm tempo para brincar, os jovens alheiam-se do mundo exterior e os trabalhos de casa substituem-se aos essenciais momentos de lazer. O essencial no acto educativo é a criação de horizonte, daí que a prioridade deva ser o estimular do pensamento, o integrar dos conteúdos entre si e a realidade, e o entrar numa lógica de “resolução de problemas”, de estratégia mental. Algo que só se consegue com a personalização do ensino e a desejada intimidade do acto de aprender. Para isto é essencial reduzir drasticamente o número de alunos nas salas de aulas – como é possível passados mais de trinta anos desde o 25 de Abril, termos, ainda hoje, aulas com 25 e mais alunos? Toda a classe politica é responsável por isto.
Vivemos num mundo que “é demais para nós próprios”. Há demasiada informação – a sociedade de serviços oferece-nos uma série infinita de escolhas mas, depois, não sabemos escolher. A vida é de facto um constante escolher. Ainda estamos mentalmente agarrados a estratégias ancestrais de sobrevivência que nos habituaram a colectar e não a seleccionar. Mas desde a segunda metade do sec. XX que vivemos numa sociedade de consumo e não de oferta – nas sociedades de 3ª vaga, o mundo oferece-nos muito mais do que precisamos. O desafio é, justamente, distanciar-se do mainstream e utilizá-lo para nossa própria vantagem. É evidente que, com o percurso histórico recente que tivemos, não poderíamos evitar o fascínio do consumo e o novo-riquismo que se apoderou da nossa sociedade. Mas este é o momento de finalmente sair desta lógica e compreender as escolhas essenciais. E é neste “novo” olhar sobre o mundo que a Arte e a Cultura fazem a diferença, pois estimulam o pensamento e possibilitam uma distância crítica da realidade. O Estado, e isto é gravíssimo, continua a investir deficientemente na Cultura, e muito do que faz é novamente em equipamentos e não em conteúdos. Hoje, é mais urgente do que nunca inverter essa situação: somos um pequeno país periférico, com todos os hábitos provincianos a que esta situação naturalmente nos remete, mas se nos queremos abrir ao Mundo, temos de possuir um espaço mental criativo e de aventura, que nos afaste de quaisquer complexos de inferioridade. É, por exemplo, urgente aumentar o nível de leitura dos jovens (e não só). Neste ponto, os últimos relatórios “Pisa” são claros, estabelecendo uma relação directa entre os hábitos de leitura e a utilização da tecnologia nos países avançados, e colocando ambos no centro de um crescimento equilibrado. Neste sentido, uma ecologia do pensamento é parte integrante de um sistema ecológico global… controlar a tecnologia e não ser controlado por ela. Quantos dos nossos jovens conseguem desligar o computador para ir dar um passeio de bicicleta? E é aqui que o corpo entra como interface de tudo o que nos cerca. Tal como José Gil diz: “O corpo é tudo o que temos”. Uma palavra, pois, para o corpo, área que eu conheço bem… É impossível viver bem o mundo sem viver bem o seu corpo. O corpo existe como espaço primário, a um tempo fonte e depositário das experiências de vida mais importantes, e merece pois uma atenção redobrada desde os primeiros momentos. Nesta relação equilibrada com o corpo, e que começa desde o nascimento com a relação com a mãe, o pai, etc…., estão ancoradas memórias, emoções, e todo o edifício que, equilibradamente vai suportar a descoberta do mundo. Todas as primeiras aquisições da criança são intuitivas e envolvem o corpo até chegar à fase da predominância cognitiva em que, gradualmente, esta fica em contacto verbal com o mundo. Mas o corpo acompanhará sempre o desenvolvimento do jovem pela vida, e será a chave de uma boa qualidade de diálogo com o mundo pela vida fora. Dentro e fora das escolas têm de existir espaços de manobra e vivência para o corpo, território primeiro e último do respeito por si próprio – por isso afastará os jovens das drogas e possibilitará que nos tempos livres, seja igualmente o corpo a estar no interface com o mundo. O desporto, por exemplo, é uma grande escola para a vida, com as complexidades que a competição envolve e o aspecto formativo do relacionamento com o outro, estimulando, por exemplo, a ideia de trabalho em equipa, de estratégia e de tolerância.
Finalmente, uma reflexão que envolve a cultura e a cidadania não pode deixar de fora a nova realidade que representa a extensa rede de cine-teatros renovados ou construídos de raiz, um bom exemplo de investimentos estruturantes conseguidos na última década. Os teatros são, de facto, a alternativa aos estádios de futebol e as catedrais do nosso tempo – locais de coesão social, onde os rituais de encontro e partilha de ideias subsistem, numa sociedade que tende a fragmentar-se. Este é, igualmente, o momento de investir nos conteúdos, em programações de qualidade, e na escolha acertada dos respectivos programadores culturais: criando projectos em indispensável diálogo com o poder local, (habitual proprietária destes espaços) mas que, igualmente, consigam manter-se imunes às expressões a que esta proximidade frequentemente conduz. Investir na criação de novas obras, co-produzir artistas emergentes e desenvolver uma paisagem criativa vibrante e aberta à contemporaneidade. No entanto, é essencial que este trabalho estruturante nunca se divorcie do essencial trabalho de criação de novos públicos e da sua vertente sócio-pedagógica. Assim, e à medida que os teatros municipais se profissionalizam, é indispensável que cada um se dote de uma sólida equipa sócio/cultural que projecte o seu trabalho para o exterior, nomeadamente para a escola, irradiando projectos e cativando o tecido escolar. Pela experiência que tenho, fruto de anos de digressão internacional e residência em importantes teatros, bem como pelo nosso projecto em Montemor-o-Novo, estou convicto de que esta dimensão é catalizadora da sociedade e abre profundamente o horizonte dos cidadãos. Aqui, o Ministério da Cultura terá o papel fundamental de estimular esta nova realidade, usando o seu papel legitimador, e lançando programas que recompensem as boas práticas culturais, sobretudo as que englobem um papel multiplicador e sinérgico. O mundo é um rizoma e cada indivíduo tem uma responsabilidade acrescida nesta paisagem. As escolhas que cada um faz têm um real impacto não só na sua vida como na de todos. Nesta nova realidade não existem “empregos para a vida” e todas as profissões são nobres e indispensáveis para o processo produtivo. Infelizmente, também neste quadro de voragem global todas as profissões têm um elevado grau de instabilidade, face ao qual, a única opção é sermos altamente qualificados, estar preparados para profissões novas e inventar as que ainda não existem. Isto requer uma abertura mental nos antípodas da que hoje ainda subsiste. É neste modelo transversal e não centralizador que devemos apostar – nas “contaminações” que a nova sociedade nos oferece e nos desafios que nos coloca. A mobilidade dos produtos na sociedade de globalização só gera riqueza onde for acompanhada pela mobilidade das ideias e pela abertura de espírito que cria estratégias de antecipação e se traduz em independência e iniciativa. Para uma aventura gigantesca como esta, é essencial colocar a fasquia alta e mobilizar toda a sociedade. Fazer um pacto de regime com todos os partidos e aceitar as contribuições de amplos sectores da sociedade. Não ir nem devagar de mais nem demasiado depressa – encontrar o ritmo determinado necessário para uma mudança feita de avanços e recuos, paciente e que sabemos geracional.
Rui Horta fonte: In Portefólio - Revista da Fundação Eugénio de Almeida, nº 2, 2006-2007
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