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Não viajar sozinho
Nunca viajes sozinho. Talvez este tenha sido o tema do percurso dos últimos 30 anos. Não sendo propriamente um homem de efemérides (tendo-me esquecido várias vezes do meu próprio aniversário), esta comemoração vale apenas pelo que pode trazer de reflexão pessoal e não tanto pela formalização que inevitavelmente encerra. Certo, 30 anos é muito, e nada do que está para trás é menos válido. Com tudo se aprende e de tudo se faz o chão da estrada percorrida, no entanto o importante é que ela seja larga e que no processo se forjem cumplicidades, aventuras e riscos, tudo aquilo de que afinal é feito o sonho dos homens. Em arte, a ideia de carreira não existe, nada é um somatório de objectivos ou um cerebral jogo de ambições. Existe sim a ideia de percurso, de partilha e de crescimento artístico, visto, no meu caso, como um factor de crescimento pessoal. E porque o Homem se define pelo trabalho e pelo amor (visto aqui no sentido mais lato), a ideia de celebrar 30 anos de profissão é sobretudo celebrar 30 anos em que os amigos, a família e todo um sistema planetário de afectos nunca ficaram comprometidos pela dinâmica da criação. Daí que, ao analisar o meu percurso, eu encontre constantemente as referências humanísticas no centro do processo artístico e vice-versa. Desde o intérprete ao professor, à descoberta de coreografia – tudo são declinações de encontros e aventuras partilhadas. Os anos de Nova Iorque foram isso mesmo. O final dos anos 80 em Portugal foi, acima de tudo, isso. A década de 90 na Alemanha foi mais do mesmo. E o regresso a Portugal em 2000 é o fechar de um círculo, onde encontro sempre a mesma vontade de não estar sozinho no percurso. E disso se fez a minha criação: dos temas recorrentes, a comunicação com o outro é sem dúvida o mais claro, mas também a renúncia da exclusão, a vontade indomável de fundir o meu corpo com o de outro, de atravessar a sua pele, seja ela a do espírito ou a do corpo. Se o Homem não se transcender deixará de ter dúvidas, deixará de olhar para o mundo com olhos de criança. A arte oferece-nos a grande possibilidade de sentir intuitivamente como essa criança, mas também reflectidamente como um adulto. É neste misterioso encontro do sentir e do entender que a arte existe: forjando novos olhares sobre o mundo e instalando a dúvida enquanto método. As obras dos artistas são os momentos fugazes em que se materializa a criação, fractais dos seus universos complexos, o espaço de mediação entre o público e o criador. Acredito que neste espaço podem existir respostas e iluminações. Acredito que o Homem se revela na dúvida e no espaço da transgressão. Para alguém que cresceu num mundo dogmático antes do 25 de Abril, este percurso artístico equivale, mais uma vez, a um percurso de descoberta interior e de descoberta do mundo com “outros olhos de ver”, em muito paralelo ao que aconteceu à minha geração nos últimos 30 anos – por isso celebro 30 anos de dança logo a seguir a 30 anos de 25 de Abril. A revolução do meu corpo só foi possível como corolário da revolução social. Eu e grande parte da minha geração acordámos para as artes como fruto desta contaminação social. O que se passou no meu percurso artístico foi uma peculiar combinação de 30 anos de viagem: sete anos de Lisboa, sete anos de Nova Iorque, dez anos de Alemanha, seis anos de Montemor… Um crescimento que necessitou de tempo. O tempo que leva a formar um discurso idiossincrático, numa primeira geração que desperta para o mundo. Finalmente, o regresso a Portugal, a Montemor-o-Novo. A criação de um espaço de manobra e diálogo para os criadores, protegido e distante do mainstream urbano. Um território silencioso, de encontro com os outros e consigo mesmo. Um espaço de cruzamento artístico, de transgressão e de laboratório. Aquilo que, de alguma forma, eu tinha usufruído em Frankfurt e que desejava partilhar com outros criadores, só que potenciado pelo espaço e pelo tempo que o Alentejo oferece. Assim surge O Espaço do Tempo, no Convento da Saudação, novamente o desejo de não viajar sozinho e de tecer novas cumplicidades. Cumplicidades que aqui se estendem a toda a comunidade envolvente, partilhando as mais-valias que este projecto oferece: o acesso à cultura e o imperioso investimento nas consciências. Ao acreditar numa sociedade em que o Homem está no centro e não os bens de consumo, fazemos igualmente opções artísticas. Falar de um novo teatro, uma nova dança ou de experimentalismo nas artes performativas é, já em si, um acto de resistência, pois o momento e o efémero não se podem comprar. Colocar o corpo no centro deste discurso e pô-lo em diálogo com as novas tecnologias é igualmente completar este mesmo discurso e dar lugar à expressão mais vibrante e actual do ser humano. Adicionarmos uma componente sociocultural a este projecto é potenciar para o exterior as suas mais-valias – sair de casa para um evento cultural numa sociedade fragmentada e subjugada por uma cultura televisiva redutora é um ritual de celebração e um essencial espaço de crescimento. Justamente não viajar sozinho e partilhar com o outro o espaço da descoberta, o espaço do encontro.
Rui Horta
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