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Um artista residente no Espaço do Tempo, deixou-nos um dia uma carta, dizendo que o Convento da Saudação era “o lugar de convergência entre o sentir e o agir, onde as ideias se cristalizam numa obra” Não sei exactamente se as ideias se cristalizam ou se os estados de alma se materializam em obras que habitualmente apelidamos de “conseguidas”. Sei, e sabemos todos os que cá trabalham, que ao longo dos anos temos vivido momentos inesquecíveis de encontros artísticos e testemunhado o desabrochar de criadores emergentes e artistas diversos. Percursos discretos protegidos do olhar exterior, do escrutínio da crítica e do meio. De facto, a arte contemporânea em geral vive dos extraordinários estímulos criativos urbanos. Por isso mesmo, acreditamos que a residência artística em espaço rural pode ser o local do distanciamento, do encontro, da síntese e da clarificação do horizonte criativo. Apesar de muita da nossa energia se dirigir para conseguir sobreviver e afirmar este projecto, quase sempre em situações difíceis, os nossos objectivos nunca se afastaram do prazer do encontro e da constante disponibilidade e entrega da nossa equipa. Temos a consciência que este espaço pertence a todos os criadores de qualidade e que só sobrevirá enquanto estiver ao serviço das suas obras e dos seus percursos - enquanto for um ponto de abrigo para uma geração de criadores habitualmente nómadas, um projecto com características de serviço público, sendo por isso de todos e não só de alguns, tal como o Convento da Saudação o é. Por isso hoje, e com este projecto de consolidado, é necessário afastar o peso institucional, aligeirar as rotinas e manter a chama viva. O que nos dá força e a razão de existir são os criadores. A arte pertence aos artistas, e não aos promotores profissionais e muito menos aos políticos.
Rui Horta
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