Cine-Teatro Curvo Semedo e… Raul Lino
Poucos montemorenses saberão que o belo edifício de cinema e teatro que a cidade possui foi projectado por um dos mais importantes arquitectos portugueses deste século, Raul Lino. E, nessa convicção, vou hoje contar-vos a história do nosso teatro, aludindo também ao grande artista que o concebeu.
Antes do Cine-Teatro Curvo Semedo já pelo menos, duas casas de espectáculos tinham existido na então vila. Para além da já referida casa do antigo convento de S. João de Deus, improvisado teatro de relativamente curta existência, foi construído, a partir de 1874, na Rua Nova, o Teatro Montemorense, no local em que hoje está a Casa dos Magistrados e Electricidade de Portugal. A iniciativa foi de uma Companhia formada por particulares, entre os quais Álvaro de Carvalho, João Alves Pereira, Francisco da Costa Campos e José Pereira da Rosa. O teatro foi inaugurado em Setembro de 1882, com um espectáculo em que participou o grande actor Taborda. Nas décadas seguintes, segundo a memória da época, passariam pelo seu palco “ as mais gloriosas figuras da arte cénica” e “ muitos amadores distintos interpretando, sem deslustre, as mais notáveis peças clássicas”.
Na noite de 22 de Maio de 1922, o teatro foi destruído por um incêndio. E, em consequência, três anos depois, um numeroso grupo de pessoas reunidas na Escola Conde Ferreira, decidiu a construção de uma nova sala de espectáculos para a vila, que homenagearia, com o seu nome, o poeta montemorense Belchior Curvo Semedo. Constituiu-se uma companhia edificadora da nova construção, de que a Câmara era principal accionista. Para autor do projecto foi logo escolhido o arquitecto Raúl Lino “que regressara duma longa viagem ao estrangeiro e vinha ansioso por edificar no nosso Paiz obras que não nos fizessem desdouro em comparação com o que lá fora admirara”.
Raúl Lino, com 46 anos quando realizou este projecto, era um dos mais notáveis arquitectos do país e responsável pela renovação da arquitectura portuguesa nas primeiras décadas do século.
Nascido em 1879, formara-se na Alemanha, onde foi discípulo de Kohler e de Albrecht Haupt, e, regressado, fizera com Roque Gameiro, uma viagem pelo país, particularmente pelo Alentejo, durante a qual realizou numerosos registos do que ia observando, nomeadamente da arquitectura regional. Essa viagem mostra já as preocupações, que demonstraria no decurso da sua longa existência, de reinserir na arquitectura portuguesa a fidelidade às tradições construtivas nacionais.
Dos primeiros anos do século são algumas das suas obras principais, como a casa do pianista Rey Colaço, o Solar dos Patudos, em Alpiarça, para José Relvas e a Casa do Cipreste, em Sintra sua residência. Mais próximos, no tempo, do projecto de Montemor, são o da casa de António Sérgio e o do teatro Tivoli, em Lisboa, ambos de 1924.
Com um ano de diferença deste último, o Cine-Teatro Curvo Semedo, projectado em 1925 para um espaço aberto como era o Rocio, a par da largueza e nobreza da concepção, acentuada pela utilização de um grande frontão de tipo clássico e de colunelos entre as janelas geminadas, mostra elementos da nossa arquitectura tradicional, como os alpendres, o gradeamento em tijolo e pormenores decorativos.
Em 22 de Outubro de 1925 procedeu-se ao lançamento da primeira pedra, num terreno do Rocio vendido pela Câmara. O número de accionistas era de 385, sendo alguns operários, que pagariam em trabalho o valor das acções.
Os trabalhos decorreram até Março de 1927 e, a partir daí, pararam por motivos provavelmente de natureza económica, estando feitas apenas as fundações e algumas paredes.
Antes das comemorações nacionais de 1940 – centenário da Independência e da Restauração – surgiu, um novo movimento, com apoio da Câmara, para a conclusão do teatro. Foi proposta ao ministro das Obras Públicas de então, Duarte Pacheco, a atribuição de um subsídio. Um dos motivos invocados para o retomar da obra era o de minorar a crise de trabalho existente. Mas o ministro emitiu um despacho desfavorável, por achar que a Câmara “ só deverá abalançar-se a uma obra desta envergadura e finalidade no caso de já ter promovido a realização dos melhoramentos públicos que mais interessam à vida das populações”.
Só a partir de 1956, com a concessão governamental do desejado subsídio, as obras prosseguiriam, de acordo com o projecto inicial. Foram encarregados de dirigir e orientar tecnicamente a conclusão do teatro o Arq. Raul Lino, agora com 77 anos, e o Engenheiro José Ribeiro de Carvalho e Silva. Em 1959, com as obras quase concluídas, ficou Raul Lino com o encargo total, por o Eng. Carvalho e Silva ter sido preso por motivos políticos.
Finalmente, no dia 17 de Janeiro de 1960, o Cine-Teatro seria inaugurado. Para assinalar o facto foram promovidos espectáculos durante três noites. Segundo o respectivo programa, na primeira, dia 17, a companhia de Amélia Rey Colaço representou “O Processo de Jesus”, de Diego Fabbri. No dia 18, a comédia “O Baile”, de Edgar Neville, pela companhia do Teatro Monumental, de Lisboa. Na última noite foi exibido o filme “O Grande Industrial” e houve uma sessão de variedades e folclore.
O Cine-Teatro, pouco tempo após a sua abertura, foi entregue para exploração a uma empresa privada.
A propósito de Raul Lino e da sua obra em Montemor, há ainda algo mais a dizer. A Casa dos Magistrados da rua Nova, construída no local do antigo Teatro Montemorense, obedece também ao risco deste arquitecto, o qual, em Novembro de 1926, a Câmara decidiu convidar para a elaboração do respectivo projecto.
Em Maio de 1927 foi decidido abrir concurso “para a construção de um coreto no Rossio desta vila, segundo a planta do senhor Raul Lino”.
Jorge Fonseca
Publicado no jornal
Folha de Montemor de Agosto.1992