o espaço do tempo
O Espaço do Tempo situado no Convento da Saudação em Montemor-o-Novo é uma estrutura transdisciplinar que serve de apoio a inúmeros criadores nacionais e internacionais. Desde o início que a nossa linha fundamental de trabalho se situa na pesquisa e na experimentação, base da renovação e da inovação das linguagens artísticas.
Consideramos que, dentro do actual panorama das artes performativas é essencial existir um projecto como o nosso, uma estrutura profissional que possa acolher e valorizar os projectos artísticos.
A transdisciplinaridade é o vector mais marcante no desenvolvimento artístico actual: nos processos de colaboração e “contaminação” de linguagens, juntam-se novas mais valias que contribuem para novos objectos artísticos. A Dança, por natureza muito aberta ao cruzamento de linguagens, está neste momento muito implicada nestas “negociações” artísticas. Existe de facto, o fascínio pela linguagem do “outro”. O Teatro, intimamente ligado ao texto, descobre o corpo e as suas potencialidades na comunicação não verbal. O Cinema, o Vídeo, a Arquitectura são hoje territórios prolíficos com uma actividade que extravasa para fora dos limites habituais. As Artes Plásticas que por tradição sempre tiveram fortes preocupações conceptuais, encontram-se hoje próximas da performance e até do teatro. A Instalação é cada vez mais um “teatro visual”, invade os nossos sentidos com uma tenção teatral, extravasa para bem longe dos territórios físicos da galeria e do museu. Em todas estas linguagens se encontra o interesse pelo corpo e frequentemente pelas tecnologias digitais (Fotografia, Edição de Imagem, Sistemas que operam em tempo real, Som Digital, 3D, etc., etc.
É justamente nesta “brecha digital” que O Espaço do Tempo opera, propondo material, técnicos e o tempo e o espaço necessários à pesquisa. Assim, falar de transdisciplinaridade é também, frequentemente, falar de desafios à percepção, desafios ligados em boa parte a novas tecnologias.
O Espaço do tempo está situado no concelho de Montemor-o-Novo, um dos mais pobres do país. Consideramos que a cultura pode ser um factor importante de desenvolvimento local, abrindo novas perspectivas aos habitantes, ajudando a qualificar o seu desempenho profissional, possibilitando inúmeras formas de abertura ao mundo e gerando emprego e investimento local.
O Espaço do Tempo colabora activamente com as forças vivas locais: escolas, associações e instituições de vária ordem. Esta linha de trabalho tem sido ampliada nos últimos dois anos com novas áreas formativas de interesse para os jovens: workshops de sensibilização ao espaço (o caça-texturas), acções de formação
com professores e alunos na área das marionetas, trabalho coreográfico com os alunos da EB 2,3 e uma acção de formação ao longo do ano dedicada a professores, agentes culturais e criadores (O Corpo que Pensa).
Temos dado, igualmente, formação na área das técnicas das artes cénicas: workshop de desenho de luzes, cursos de produção áudio e cursos de pós-produção vídeo.
Realçamos ainda o impacto económico que hoje em dia já temos na cidade. De facto, o nosso trabalho gera uma grande utilização de serviços locais, tais como, comércio, hotelaria, transportes e diversos serviços indispensáveis ao nosso funcionamento, para além da criação de sete postos de trabalho directos e um forte impulso a outras actividades.
Ainda no campo da relação com a comunidade queremos salientar a importância da nossa Esplanada de Verão, a funcionar nos meses de Junho a Setembro e que por tradição é já um ponto de encontro da população entre si, com os artistas, e com o espaço. Realçar a nossa programação regular de cinema ao ar livre, bem como uma programação regular de concertos de jazz (Programação: Rui Neves) e de DJ´s (Programação: Tiago Miranda / Lux). Acresce ainda que a Esplanada de Verão gera quinze empregos ao longo do tempo de funcionamento.
Na área da internacionalização apoiamos as digressões de Rui Horta, bem como Sónia Baptista e de João Garcia Miguel, criadores estreitamente associados ao Espaço do Tempo. Acolhemos criadores internacionais, algo de fundamental no cruzamento com os criadores portugueses. Desenvolvemos trabalho em networks internacionais, tais como o COLINA, que engloba cinco parceiros europeus. Ainda neste ponto continuaremos a funcionar em rede com teatros como o Teatro Viriato, o CCB, ou o Teatro Rivoli, no sentido de trazer a Portugal, as criações internacionais mais relevantes na área das artes performativas.
Na ligação com as Universidades colaboramos com a Escola Superior de Dança, o Fórum Dança a Faculdade de Aveiro, bem como com a Universidade de Évora, com quem recentemente temos estabelecido bastantes contactos. Somos igualmente consultores para novo projecto na área das artes da Universidade Nova de Lisboa.
Por sentirmos, na área da cultura e das artes, uma grande necessidade de reflexão e debate entre os agentes, criadores e a sociedade em geral decidimos organizar um ciclo de seminários em áreas tão diferentes como Gestão e Mecenato Cultural, Associativismo e Descentralização, Trabalho em Rede e Cultura como desenvolvimento Local.
Todos estes aspectos confluem para um aspecto relevante no nosso projecto: o espaço e o tempo para a criação. Apesar da criação contemporânea ser um produto quase sempre urbano, o objecto artístico necessita da distância necessária para a reflexão. Neste aspecto, a localização do Espaço do Tempo em Montemor-o-Novo é fundamental. Nos próximos anos e à medida que o projecto se desenvolve e solidifica,
teremos sempre muita atenção a nunca perder a intimidade necessária ao acto criativo.
O Espaço do Tempo é uma estrutura única no panorama das artes de espectáculos. Esta singularidade é definida por diferentes parâmetros:
1 - a dimensão física da estrutura aliada às possibilidades da residência (cinco estúdios, doze quartos, estúdios de som, luz, etc.);
2 – o facto desta estrutura de residência ter acesso a um excelente espaço de apresentação (Teatro Curvo Semedo), e uma pequena BlackBox (10m x 20m) totalmente equipada;
3 – a qualificação da equipa de produção e técnica que assegura a qualidade das produções;
4 – a localização em meio rural, num entorno paisagístico privilegiado e dentro de um monumento nacional, e que, não obstante, está apenas a 1h de Lisboa.
Ao tomarmos a opção de fundar O Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo decidimos implantar uma estrutura que fosse uma ferramenta ideal no contexto da criação contemporânea nacional. A arte não é a mera repetição da realidade, é sim, a reflexão (ou a re-criação) da realidade: faz pois sentido que entre os inputs urbanos e a reflexão criativa exista uma distância que possibilita o encontro com o objecto artístico. Montemor-o-Novo é um “porto de abrigo”, um antigo espaço de clausura religiosa (dominicana) e agora um espaço de “clausura” criativa. A própria arquitectura do lugar com espaços privados, semi-privados e públicos foi feita a pensar no encontro consigo próprio e com as ideias. Foi, desde o princípio, uma estrutura criada a pensar nos outros e sobretudo nas necessidades dos criadores. O facto de ser dirigida por Rui Horta, ele próprio um criador, dá uma razão palpável ao projecto e potencia os desenvolvimentos futuros.