ENSAIOS

Tiago Fróis

Portugal
Convento da Saudação | Montemor-o-Novo
16 JUN 2013 16:00

Entrevista de Rui Horta a Tiago Fróis constante no catálogo:

 

 

–  Gostava de falar da tua dinâmica de criador e da tua dinâmica de gestor de uma organização como as Oficinas do Convento. Como as equilibras?

– À medida que fui ganhando responsabilidade na máquina, fui tentando resolver as minhas necessidades criativas mais rapidamente e mais pragmaticamente, optando por um ready made, um discurso bastante directo, sem implicar muito tempo a executar, nem carecer de virtuosismo técnico. Chamo-lhes aquários, pois têm funcionado como trabalho pós laboral que me vai dando energia para o trabalho de direcção e programação das Oficinas. Aquários porque é um hobby, mas são importantes e cumprem essa função. Servem para carregar baterias  e expor discursos e inquietudes. A execução das coisas que nós queremos carregam-nos.

 

– Esta situação também influência o teu trabalho artístico, em termos de método?– Sim, necessariamente.– E em termos de discurso?

– Talvez daqui a algum tempo seja capaz de ter essa percepção. Mas acho que em termos de discurso nem por isso. Em termos de método, sim. A execução dos projectos depende de arranjar maneiras simples, muito eficazes, super eficientes, com poucos elementos e montagem rápida, que englobem também a  componente técnica.

 

 

– Consegues detectar, nestes últimos anos de criação, um caminho? Conhecendo o teu trabalho relativamente bem, apercebo-me que há toda uma  pesquisa por tudo o que é analógico. Nomeadamente pelo som e por tudo o que se pode considerar o universo sonoro.

– No outro dia pus-me a pensar nisso, em quando começaram as minhas peças sonoras, e são de 2001, quando ainda quando estava a estudar... Construí uma cadeira, fiz umas fotografias, e já tinha a componente sonora. A cadeira é a cadeira, mas o importante é a faixa sonora que construí para ela, para que fosse impossível estar lá sentado, tornando-a super incómoda. E já vem daí... Ultimamente este universo tem vindo a crescer com as pessoas que se aproximam e com os amigos que fiz no caminho. Tudo  muito por influencia do nosso colectivo, do João Bastos, e de pessoas que fui conhecendo, do Nuno Rebelo, do Marco Franco. Fomos programando coisas e estas programam-se também em função de colectivos que têm uma necessidade. Iniciámos este percurso das sonoesculturas e seguramente teve uma influência bastante forte nas coisas que fui fazendo ultimamente.– Fala-me de laboratório.– Sim, laboratórios, ensaios, experiências. O laboratório é o sítio onde se fermentam estas coisas, onde se cria, experimenta, onde se arrisca. Grande parte das minhas peças, pelo menos as últimas, têm esse carácter experimental de ensaio, não só científico, mas também de ensaio, de pensamento, de narrativa. Isso também se prende com um passado bastante ligado à fotografia, à câmara escura, e ao processo quase científico de trabalhar. Muitas vezes a narrativa está afastada e estamos só debruçados na técnica para chegar a uma narração clara, para fazer coisas tecnicamente boas, para discursar melhor. 

 

– A fotografia foi algo muito inicial. Muito teu.

– Sim, talvez uma das primeiras coisas, desde os 14/15 anos, primeiro "com passarinhos", e depois com outra atitude.  Para mim a fotografia é parecida com o vídeo. É uma coisa que não se prende a um instante,  é uma fracção de tempo seleccionada pelo tempo de exposição. Mas é uma fracção de tempo, e o tempo    é relativo. E consoante a escala dos seres, nós somos uma fracção de tempo numa escala que nós mesmo fizemos.Trata-se disso. Aquelas fotos da Bélgica que também têm som, têm a ver com isso. É também a geração, a criação de esculturas, é o que vejo também como fotografia... a criação de espaços. Não só a documentação dos espaços, mas também a criação daquele espaço. Porque eu estou a seleccionar e sou eu que estou a criar aquele espaço que estou a fotografar. Tal e qual como a paisagem, uma criação da nossa cabeça, uma coisa do pensamento. Vejo a fotografia como um ready made visual e uma  atitude informal. São instalações; muitas vezes as imagens que se podem fazer. Não fotografo sempre com essa atitude, mas muitas vezes fotografo com essa atitude informal quando estou a fazer objectos.

 

– É quase como uma necessidade parar o olhar numa coisa que passa rápido demais, elevá-la o seu potencial máximo.

– Sendo a documentação de uma situação, eu estou a dar-lhe essa potência narrativa com o registo que estou a fazer. O registo é fotográfico, mas podia não ser fotográfico, podia ser vídeo. Mas nesse caso é fotográfico e é quanto baste. Está documentado, logo existe. É como fotografar uma pedra no campo: pode eventualmente ser uma instalação, pode não ser só  fotografia. Pode ser uma instalação daquela pedra naquele local.

 

 

– Sustentabilidade. Queres falar disso? Eu associo muito a sustentabilidade com o teu trabalho e com a tua perspectiva de vida.

– Sustentabilidade...Eu não sou nem do digital nem do analógico, gosto de utilizar ferramentas e utilizá-las para os propósitos mais apropriados que elas foram concebidas. A nível do digital não sou "bem formado", eventualmente sê-lo-ei daqui por uns anos, mas de momento, e em termos de recursos na criação das minhas peças, só me consigo lembrar de coisas que consigo fazer. Todos os objectos estão ao meu alcance técnico e dos  meus recursos. E os meus recursos passam por situações analógicas, eléctricas e ópticas.

 

– Tens uma lado oficinal muito forte, de construtor.

– Sim, e isso leva-me também ao método de criação, porque a própria técnica leva à forma e a forma puxa pela técnica. É uma espécie de pescadinha de rabo na boca, não se sabendo o que leva ao quê. Ao estar a construir qualquer coisa, pelo método que isso implica, vão-te surgindo ideias para outras coisas, e isso nunca mais acaba. Enquanto que se chegar a uma oficina e mandar fazer a peça, não penso em mais nada.

 

– No teu trabalho há sempre um registo de natureza presente de uma forma ou de outra. Seja de terra, ou de rio, ou de vento, ou do próprio ar na propagação das ondas sonoras...

– São coisas simples...

 

– Mas há uma força, uma âncora...

– Mas não penso nisso porque é uma evidência... Mas também não é uma obsessão. Apenas fruto do ser. É uma preocupação, pois somos parte da natureza. Eu normalmente não falo nisso porque é um facto adquirido e assimilado. Está intrínseco e seria um disparate falar nisso.

 

– É algo sempre presente...

– Naturalmente. Há peças só à volta disso e é o que elas comunicam. Acho  pertinente mostrá-las a outras pessoas e desencadear discursos na cabeça de quem as vê. Também tento criar objectos que tenham uma linguagem o mais directa possível. Têm as suas metáforas, mas são metáforas muito literais.